Quem encheu a sua lata, em geral, não foi a Coca-Cola
Pergunte a quase qualquer pessoa quem fez a lata de Coca que ela tem na mão, e ela vai dizer que foi a Coca-Cola. Na maior parte do mundo, não é bem assim. O próprio relatório anual de 2025 da The Coca-Cola Company diz que a maioria das suas bebidas é "preparada, embalada, distribuída e vendida por parceiros engarrafadores independentes".
A empresa vende a esses parceiros um concentrado. A engarrafadora acrescenta água, gaseificada ou não, e adoçante. Ela enche as latas e as garrafas, carrega os caminhões e vende para as lojas. O relatório também ressalva que, juridicamente, a engarrafadora não é uma parceira : as engarrafadoras são "contratadas independentes e não são nossas agentes".
Algumas dessas engarrafadoras são grandes empresas de capital aberto que pouca gente conhece. A Coca-Cola FEMSA atende boa parte do México, do Brasil e da Colômbia. A Coca-Cola Europacific Partners atende, entre outros, o Reino Unido, a Alemanha, a Espanha, a França continental e a Austrália. A Coca-Cola HBC atende a Itália, a Polônia, a Suíça, a Nigéria e grande parte da Europa Central e Oriental. Essas três, mais a Arca Continental e a Swire, foram responsáveis por 44 por cento de todas as bebidas vendidas no mundo com as marcas da empresa em 2025. Esse número inclui todas as marcas da empresa, como Sprite e Fanta, e não apenas a Coca.

O que a Coca-Cola vende de fato
O que a empresa vende, sobretudo, é o concentrado. Cada engarrafadora assina um contrato que lhe permite fabricar e vender as bebidas da empresa, com as marcas dela, num território definido e em embalagens aprovadas. Na maioria dos mercados, o preço do concentrado leva em conta quanto a engarrafadora cobra pela bebida pronta, além de onde ela vende e em que embalagens. Quando a engarrafadora vende mais, ou mais caro, a Coca-Cola em geral também ganha mais.
O relatório da empresa divide o negócio em duas partes. Em 2025, a venda de concentrado e de xarope respondeu por 85 por cento das bebidas vendidas com todas as suas marcas, mas por apenas 59 por cento da receita. Os outros 41 por cento da receita vieram dos 15 por cento restantes das bebidas, que a própria empresa fabricou e vendeu como produto pronto. Também aqui os números abrangem toda a linha da empresa, e não só a Coca. O concentrado é leve, barato de transportar e vendido em grande volume. Uma bebida pronta é quase só água dentro de uma embalagem pesada, e transportá-la custa caro.

O engarrafamento traz receita, o concentrado traz lucro
As engarrafadoras que ainda pertencem à Coca-Cola aparecem agrupadas no balanço numa única unidade, chamada Bottling Investments (investimentos em engarrafamento). Em 2025, essa unidade faturou 5.735 milhões de dólares, o equivalente a 12,0 por cento da receita da empresa, mas gerou 3,1 por cento do lucro operacional.
A diferença aparece nas margens, ou seja, na parte de cada dólar vendido que sobra como lucro operacional. Em 2025, a unidade de engarrafamento ficou com 7,4 centavos de cada dólar vendido. A divisão da América Latina, onde engarrafadoras como a FEMSA fazem a bebida pronta, ficou com 59,1 centavos. A divisão que abrange Europa, Oriente Médio e África ficou com 39,7 centavos.
A empresa explica o motivo numa única frase : fabricar e vender bebidas prontas em geral traz "receitas operacionais líquidas maiores, mas margens de lucro bruto menores do que as operações de concentrado". São números de segmento, de um único ano, e não o lucro de cada lata. As unidades regionais também incluem atividades além da venda de concentrado, e cada uma tem seus próprios custos e efeitos de câmbio. Mas a diferença aponta na mesma direção que a própria empresa descreve.

Há anos a Coca-Cola vende as próprias engarrafadoras
Abrir mão do engarrafamento é uma escolha que a empresa vem repetindo. Há dez anos, as engarrafadoras de sua propriedade traziam cerca de metade da receita : segundo a empresa, a fatia da unidade de engarrafamento era de 52 por cento em 2015, contra 12 por cento em 2025. A empresa chama essas vendas de refranchising, algo como "refranquear" : devolver um território a uma engarrafadora independente.
Os Estados Unidos foram os primeiros. Em outubro de 2017, a Coca-Cola anunciou que tinha passado todo o seu engarrafamento americano para quase 70 engarrafadoras independentes. Foram 60 transferências separadas, envolvendo mais de 55.000 funcionários e mais de 50 fábricas. Os últimos territórios que lhe restavam na América do Norte, o Canadá e as Ilhas Virgens Americanas, deveriam seguir o mesmo caminho em 2018.
As vendas continuaram desde então. Em 2024, a empresa vendeu o engarrafamento nas Filipinas e em Bangladesh, além de territórios na Índia. Em maio de 2025, vendeu mais territórios indianos, e em outubro de 2025 vendeu suas operações de bebidas prontas na Nigéria. Segundo o relatório, as vendas de 2024 nas Filipinas, em Bangladesh e na Índia foram um dos motivos pelos quais a margem bruta subiu de 61,1 por cento em 2024 para 61,6 por cento em 2025.
A empresa ainda engarrafa por conta própria numa lista mais curta de lugares : partes da África, Índia, Malásia, Mianmar, Nepal, Omã, Singapura e Sri Lanka. Nesses países, portanto, a resposta à pergunta do título ainda pode ser sim.

A maior venda, na África, ainda não foi concluída
A maior engarrafadora que a Coca-Cola ainda controla é a Coca-Cola Beverages Africa, presente em 14 países do leste e do sul da África, entre eles a África do Sul. A Coca-Cola detém 66,52 por cento da empresa. Em outubro de 2025, concordou em vender 41,52 por cento do negócio à Coca-Cola HBC. A HBC também está comprando a participação de um investidor familiar, o que lhe daria 75 por cento, num acordo que avalia a engarrafadora inteira em 3,4 bilhões de dólares. A HBC tem ainda uma opção de compra dos 25 por cento restantes em até seis anos. O negócio faria da HBC a segunda maior engarrafadora de Coca-Cola do mundo em volume.
Em julho de 2026, a Comissão de Concorrência da África do Sul recomendou a aprovação, com condições que incluem uma pausa nas demissões e investimentos na distribuição local. O Tribunal de Concorrência aprovou o negócio com condições, numa decisão datada de 8 de setembro e tornada pública em 11 de setembro. Aprovação é um passo rumo à conclusão, não a conclusão em si. Quando o negócio foi anunciado, ele dependia também do aval de reguladores fora da África do Sul, entre eles o COMESA, um bloco comercial regional da África Oriental e Austral, e autoridades do Quênia e da Etiópia. Até o início de outubro de 2026, o fechamento não havia sido anunciado, e as empresas disseram esperar concluir o negócio até o fim de 2026, assim que as exigências restantes forem cumpridas.

- The Coca-Cola Company and Gutsche Family Investments agree to sell controlling interest in Coca-Cola Beverages Africa to Coca-Cola HBC AG
- Competition Tribunal of South Africa : Coca-Cola HBC AG and Coca-Cola Beverages Africa case record
- South Africa watchdog backs Coca-Cola HBC bottling buy
- Coca-Cola HBC gets approval for major African bottling merger
- The Coca-Cola Company 2025 Form 10-K (PDF)
Vender as engarrafadoras não significa abrir mão delas
A Coca-Cola continua sendo acionista de muitas engarrafadoras que não administra. No fim de 2025, tinha 18 por cento da Coca-Cola Europacific Partners, 28 por cento da Coca-Cola FEMSA, 22 por cento da Coca-Cola HBC e 24 por cento da Coca-Cola Bottlers Japan. Por meio dessas participações, fica com uma parte do lucro das engarrafadoras, além do que ganha com o concentrado.
Ela também pode vender essas participações. Em março de 2025, vendeu parte da sua fatia na Coca-Cola Europacific Partners e registrou um ganho de 331 milhões de dólares. Em novembro de 2025, vendeu à própria Coke Consolidated, a maior engarrafadora de Coca-Cola dos Estados Unidos, toda a participação que tinha nela.

A Coca de máquina dos restaurantes americanos é a exceção
Há um caso conhecido em que a suposição comum chega mais perto da verdade, embora não por completo. Nos Estados Unidos, a Coca servida na máquina de um restaurante ou de um cinema é misturada na hora pelo próprio equipamento do estabelecimento. O xarope usado nessa mistura é fabricado pela própria Coca-Cola e vendido aos restaurantes ou aos atacadistas que os abastecem.
Segundo o relatório, fora dos Estados Unidos as engarrafadoras em geral também podem fabricar esse xarope de máquina, a partir do concentrado da empresa. A empresa também vende algumas bebidas prontas diretamente em certos mercados e administra a rede de cafeterias Costa. São exceções reais, mas não mudam quem enche a maioria das latas e garrafas.
A Pepsi escolheu o outro modelo e agora está reavaliando
A PepsiCo mostra que se trata de uma escolha, e não de uma lei do mercado de bebidas. Na América do Norte, ela é dona de boa parte do próprio engarrafamento e da distribuição. Em setembro de 2025, o fundo de investimento Elliott, que disse ter uma participação de 4 bilhões de dólares, escreveu ao conselho da PepsiCo. Descreveu uma "estrutura de engarrafamento verticalmente integrada com desempenho abaixo do esperado" e pediu que a empresa avaliasse refranqueá-la, "como fez sua concorrente mais próxima e como a própria PepsiCo fez em anos anteriores".
A PepsiCo não aceitou vender. Em dezembro de 2025, apresentou um plano que o Elliott disse apoiar. Nele, a PepsiCo afirmou estar "avaliando com cuidado um modelo integrado" e que analisaria o retorno sobre o investimento, a escala e a participação de mercado estado por estado nos Estados Unidos. Prometeu uma atualização completa sobre sua cadeia de abastecimento na América do Norte no fim de 2026. Qual modelo serve melhor à PepsiCo ainda é uma questão em aberto, e a resposta pode variar de um estado para outro.
O nome na lata e a empresa que a encheu
Então, para uma lata ou garrafa comprada na maioria dos países, a resposta curta é não. Num certo sentido, a Coca-Cola faz, sim, a sua Coca : o concentrado que dá o sabor à bebida vem da Coca-Cola. Mas a bebida pronta foi misturada, envasada e entregue por uma engarrafadora que compra esse concentrado sob um contrato que a autoriza a vender a bebida com o nome da Coca-Cola. A parte pesada e cara do trabalho fica com a engarrafadora. A parte que mais rende em cada dólar, a fórmula e a marca, fica com a empresa cujo nome está na lata.









