Por que o MIT ficou em primeiro lugar este ano?
Em 22 de setembro de 2026, a revista americana U.S. News & World Report publicou seu ranking de faculdades e universidades, o Best Colleges 2027. Na categoria principal, a das universidades nacionais, Princeton ficou fora do primeiro lugar pela primeira vez desde a edição de 2012. O primeiro lugar foi para o MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Princeton ficou em segundo e Harvard em terceiro.
Uma coisa claramente mudou : a fórmula. A U.S. News eliminou um critério que media quanto os formados deviam em empréstimos estudantis federais. No lugar dele entrou um novo : quanto os formados ganham quatro anos depois de concluir o curso, em comparação com outras pessoas que estudaram a mesma área. Os dados vêm do College Scorecard, a base de dados do Departamento de Educação dos Estados Unidos. O novo critério vale 5% da nota de cada instituição.
Princeton cobre há muito tempo as necessidades financeiras dos alunos com bolsas, e não com empréstimos, por isso era difícil superá-la no quesito dívida. Eric Brooks, diretor de análise de dados educacionais da U.S. News, disse à revista dos ex-alunos de Princeton que os dados de base da universidade "no saldo, ficaram mais ou menos iguais". Ele disse também que a vantagem de Princeton sobre as outras universidades vinha diminuindo havia várias edições, desde que a U.S. News passou a medir a produção científica dos professores. A U.S. News destacou as notas altas do MIT em pesquisa dos professores, nos resultados dos exames de admissão e na renda dos formados. A régua com que as duas foram medidas mudou, mas essa não é a história toda : os relatos publicados não dizem quanto da troca no topo veio do novo critério de renda e quanto veio de uma distância que já estava diminuindo.

Ser difícil de entrar não conta nada no ranking
Pergunte à maioria das pessoas o que faz uma universidade de ponta e a resposta será : é difícil de entrar. O ranking não mede isso. A U.S. News tirou a taxa de aprovação da fórmula na edição de 2019, publicada em setembro de 2018. Naquela época, ela já valia só 1,25%. A U.S. News ainda publica uma lista à parte das instituições com as menores taxas de aprovação, mas essa lista não entra em nada no ranking principal.
O que sobrou de mais parecido são as notas nos exames : os resultados do SAT e do ACT, as provas padronizadas que os candidatos fazem para entrar na faculdade nos Estados Unidos, que valem 5% para as universidades nacionais. A posição do aluno na turma do ensino médio e a proporção de ex-alunos que fazem doações já fizeram parte da fórmula. As duas foram retiradas na edição de 2024.
- What's new in the 2019 U.S. News Best Colleges rankings (via Yahoo)
- U.S. News & World Report announces 2019 Best Colleges rankings (PR Newswire)
- U.S. News Best Colleges ranking 2027 : MIT ends Princeton's long run at the top (Poets&Quants)
- Key changes in how the 2024 Best Colleges rankings were calculated (U.S. News)
Mais da metade da nota é o que acontece depois que o aluno entra
Nas universidades nacionais, 52% da nota corresponde ao que a U.S. News chama de resultados dos alunos. A maior parte é a proporção de alunos que se formam, que vale 16%. Outros 10% comparam essa taxa de conclusão com a taxa que a U.S. News prevê para a instituição, considerando os alunos que ela admite : quem forma mais alunos do que o esperado ganha pontos. A proporção de alunos do primeiro ano que voltam para o segundo vale 5%.
Onze por cento vão para os alunos que recebem a Pell Grant, a principal bolsa federal para estudantes de graduação de famílias de baixa renda. Duas medidas, de 5,5% cada, contam quantos deles se formam e como a taxa de conclusão deles se compara à de todos os outros. Os últimos 10% tratam do dinheiro depois da faculdade : 5% para a proporção de formados que ganham mais do que alguém típico que só concluiu o ensino médio, e 5% para o novo critério de renda por área de estudo.
A U.S. News publica ainda uma lista separada de mobilidade social, feita com as medidas ligadas à Pell Grant. É uma lista diferente do ranking principal e não o substitui.

Um quinto da nota é a opinião de dirigentes sobre os concorrentes
Fora os resultados dos alunos, o maior critério é uma pesquisa de opinião. A U.S. News envia um questionário ao reitor, ao pró-reitor acadêmico e ao diretor de admissões de cada instituição. Cada um deve dar uma nota de 1 a 5 à qualidade acadêmica das instituições da mesma categoria, e apenas às que conhece. A média dessas notas vale 20% da nota final.
Segundo o documento de metodologia da U.S. News para a edição de 2027, o questionário foi enviado a 4.405 pessoas e 30,8% responderam. Entre as universidades nacionais, a taxa de resposta foi de 41%. A U.S. News afirma que a pesquisa capta qualidades difíceis de medir de outra forma, como a qualidade do ensino e a saúde da instituição. Críticos na imprensa especializada em ensino superior argumentam há anos que ela mede sobretudo reputação.

De onde vêm os números
Os dados por trás da fórmula têm duas origens. Uma parte vem de um questionário estatístico que a U.S. News envia a cada instituição, que o preenche sobre si mesma. A outra vem do governo federal. Aí entram os dados de conclusão de curso que as instituições são obrigadas a informar ao Departamento de Educação e os dados de renda do College Scorecard, a base pública do departamento sobre custos e resultados das faculdades.
O peso tem se deslocado para os dados federais. Na edição de 2024, a U.S. News retirou cinco critérios que, juntos, valiam 18%, entre eles o tamanho das turmas, as doações de ex-alunos e a proporção de professores com o título mais alto da sua área. Outro era a proporção de formados que tomaram empréstimos federais, uma medida diferente do critério de dívida substituído em 2027. A U.S. News disse que estava trocando medidas que nem todas as instituições informavam. Para a edição de 2027, a revista informa que 73% das instituições classificadas enviaram o questionário estatístico, contra 79% no ano anterior, e que 99 das 100 primeiras universidades nacionais o enviaram.

O que aconteceu quando os números da própria Columbia estavam errados
Os números que uma instituição informa sobre si mesma só valem o que vale a palavra dela. Em 2022, a Universidade Columbia estava em segundo lugar. Naquele ano, Michael Thaddeus, professor de matemática da própria Columbia, publicou uma análise que questionava os dados por trás dessa posição. Entre outras coisas, ele contestou a afirmação de que 83% das turmas da Columbia tinham menos de 20 alunos.
Em setembro de 2022, a Columbia reconheceu problemas em dois números, o tamanho das turmas e a proporção de professores com o título mais alto da sua área, e disse ter usado "metodologias desatualizadas e/ou incorretas". Esse reconhecimento cobria esses dois números, não tudo o que o professor havia questionado. A Columbia não enviou um novo questionário, e a U.S. News a colocou em 18º lugar naquele mesmo mês. Em 2025, a Columbia aceitou pagar US$ 9 milhões para encerrar uma ação coletiva movida por estudantes por causa dos dados, negando ter agido de forma irregular. A U.S. News disse que a Columbia não respondeu às dúvidas sobre outros três números e que continuará avaliando se inclui a universidade no ranking.
- Columbia statement on Common Data Set reporting
- An investigation of the facts behind Columbia's U.S. News ranking (Michael Thaddeus)
- Columbia U.S. News ranking settlement (CNN)
- Columbia drops in U.S. News ranking (The Washington Post)
- U.S. News & World Report : Columbia falls (Deseret News)
- U.S. News will continue to evaluate Columbia University's inclusion
Recusar-se a participar não tira uma faculdade da lista
Em 16 de novembro de 2022, a faculdade de direito de Yale anunciou que deixaria de enviar dados à U.S. News, e a de Harvard fez o mesmo horas depois. Stanford, Columbia, Berkeley, Georgetown e outras seguiram o exemplo. A U.S. News respondeu que continuaria classificando todas as faculdades de direito credenciadas com os dados que a Ordem dos Advogados dos Estados Unidos, a American Bar Association, obriga as escolas a publicar. Também reduziu o peso da pesquisa de reputação no ranking de direito, que era de 40%. Yale ocupava sozinha ou dividia o primeiro lugar desde que a U.S. News começou a classificar faculdades de direito, em 1990. Continuou aparecendo no ranking, e na edição de 2026 do ranking de direito Stanford ficou sozinha em primeiro, com Yale empatada em segundo.
Os cursos de graduação da Columbia deixaram de participar em junho de 2023. A U.S. News classifica a Columbia mesmo assim, com os números que a universidade informa ao governo federal. Na edição de 2027, ela aparece empatada em 12º lugar.
As faculdades de medicina seguiram outro caminho. A de Harvard saiu em janeiro de 2023, e Stanford, Johns Hopkins, Columbia e outras foram atrás. A U.S. News então deixou de dar posições numeradas às faculdades de medicina e, na edição de 2024, passou a dividi-las em quatro faixas. As que não enviaram dados apareceram como não classificadas naquela edição. Se sair tira ou não uma instituição da lista depende de a U.S. News conseguir reconstruir os números dela a partir de registros públicos.

- Yale and Harvard law schools withdraw from U.S. News rankings (The Washington Post)
- U.S. News reworks law school rankings, but Yale won't return (Higher Ed Dive)
- Harvard Law School ranking continues (The Harvard Crimson)
- Stanford overtakes Yale for top U.S. law school (Justia News)
- U.S. News revamps medical school rankings for 2024 (BestColleges)
- U.S. News releases medical school rankings (Becker's Hospital Review)
- Harvard Medical School withdraws from U.S. News rankings (Inside Higher Ed)
Uma posição no ranking é um conjunto de escolhas sobre o que conta
Somando tudo, uma posição no ranking da U.S. News resulta de mais de uma dúzia de medidas, com pesos que a própria U.S. News escolhe. Os dados vêm em parte das instituições e em parte do governo, então as instituições também moldam os números, pelo que informam e por informarem ou não. As categorias dentro das quais as instituições são comparadas também são redesenhadas. Este ano, a Classificação Carnegie, um sistema nacional de classificação das instituições de ensino superior americanas, foi revista. Com isso, cerca de uma em cada cinco instituições antes classificadas passou para outra categoria do ranking, e só isso já pode mudar a posição de uma instituição.
Nada disso torna o ranking inútil. Mas significa que, quando uma instituição sobe ou desce, as perguntas que valem a pena são : a instituição mudou, a fórmula mudou ou o grupo com que ela é comparada mudou? Muitas vezes, mais de uma dessas coisas muda ao mesmo tempo. No topo da lista deste ano, o próprio diretor de dados da U.S. News apontou para a fórmula, ao mesmo tempo que descrevia uma distância que vinha diminuindo havia anos.









