A lixeira de recicláveis manda o plástico para a triagem, não para a reciclagem
Se você perguntar a quase qualquer pessoa o que acontece com um pote de iogurte depois que ele vai para a lixeira de recicláveis, ela vai dizer que ele é reciclado. Na maioria dos casos, não é isso que acontece. A lixeira é só o primeiro passo. Um caminhão leva tudo para uma central de triagem. Lá, o plástico é separado por tipo e prensado em grandes fardos. Um fardo só vira material novo se uma recicladora puder usá-lo e quiser comprá-lo. O plástico rejeitado na triagem ou no processamento acaba queimado, enterrado ou descartado de outro jeito. Uma parte é mandada para outros países, o que muda o destino do plástico, mas não prova que ele foi reciclado.
Por isso, o que é coletado e o que é reciclado são dois números diferentes. A OCDE, organização que reúne sobretudo países ricos e estuda políticas econômicas, analisou o lixo plástico do mundo em 2019. Das 353 milhões de toneladas, 55 milhões, ou 15%, foram coletadas para reciclagem. Dessas, 22 milhões acabaram descartadas durante o processamento porque não serviam. No fim, cerca de 33 milhões de toneladas, ou 9% do lixo plástico mundial, foram recicladas. Cerca de 19% foram queimados e quase metade foi para aterros. Outros 22% acabaram em lixões a céu aberto, foram queimados ao ar livre ou se espalharam pelo meio ambiente.
Esses 9% são uma fração de todo o lixo plástico do mundo. Não são a chance de uma garrafa colocada numa lixeira ser reciclada, mas mostram quão grande pode ser a distância entre coletar e reciclar.

Que plástico volta de verdade como plástico novo?
Depende do material de que o objeto é feito. Garrafas transparentes de bebida (de um plástico chamado PET) e galões de leite (de um plástico chamado PEAD, ou HDPE na sigla em inglês) são simples, e há quem os compre. Potes, bandejas, filmes plásticos e embalagens feitas de vários plásticos colados entre si são aceitos em alguns lugares e em outros não. Se vão ser reciclados ou não depende do plástico, do formato, de quão limpo o objeto está e de onde ele foi coletado.
Os Estados Unidos mostram bem essa distância. A estimativa completa mais recente da Agência de Proteção Ambiental americana (EPA) ainda é a de 2018, embora o site da agência tenha sido atualizado desde então. Ela cobre o plástico do lixo de casas e empresas, que a EPA chama de resíduos sólidos urbanos, e não todo o lixo plástico do país. Em 2018, esse lixo continha cerca de 35,7 milhões de toneladas de plástico, e cerca de 3 milhões de toneladas, ou 8,7%, foram recicladas. Cerca de 5,6 milhões de toneladas foram queimadas para gerar energia, e cerca de 27 milhões foram para aterros. A taxa de reciclagem foi de 29,1% para garrafas e potes de PET e de 29,3% para garrafas de PEAD sem pigmento, como os galões de leite. É mais que o triplo da taxa do plástico em geral, e mesmo assim a maioria das garrafas não foi reciclada. Os números mostram a distância, mas não mostram por si sós o que a causa.

O número dentro das setas indica o tipo de plástico, não se ele vai ser reciclado
Muitos objetos de plástico trazem um pequeno número de 1 a 7 dentro de um triângulo de setas. A maioria das pessoas entende isso como sinal de que o objeto é reciclável. Na verdade, é um código de identificação de resina : ele só diz de que tipo de plástico o objeto é feito. O número 1 é o PET e o número 2 é o PEAD. Os números de 3 a 7 são os outros plásticos, justamente os que raramente encontram comprador.
O código não garante que alguém vá coletar ou reciclar o objeto, e a própria norma deixa isso claro. Como as setas confundiam as pessoas, a ASTM International, organização que redige a norma, trocou-as por um triângulo sólido simples numa revisão de 2013 da norma D7611. A regra vale para moldes novos, e os antigos não precisam ser trocados. Por isso, as velhas setas continuam impressas em muitos produtos.
Para onde foi o plástico que ninguém queria?
Durante anos, os países ricos enviaram ao exterior boa parte do plástico que separavam, principalmente para a China. Segundo um estudo de pesquisadores da Universidade da Geórgia publicado na revista Science Advances, a China recebeu cerca de 106 milhões de toneladas de lixo plástico desde 1992. Foi quase metade de todo o lixo plástico importado no mundo.
Em janeiro de 2018, com uma política chamada National Sword (Espada Nacional), a China deixou de aceitar lixo plástico doméstico. Em março de 2018 vieram limites rígidos de contaminação, e outros tipos de resíduo foram proibidos aos poucos até 2019. O plástico misturado das lixeiras de outros países perdeu seu principal destino. O mesmo estudo projetou que cerca de 111 milhões de toneladas de lixo plástico precisariam de um novo destino até 2030. As lixeiras continuaram as mesmas, mas o destino do plástico mudou.
Por que o Japão fala em 89% se a média mundial é de 9%?
Alguns países divulgam números bem mais altos. O Plastic Waste Management Institute, uma entidade do setor que publica os principais números do Japão, afirma que 89% do lixo plástico japonês teve aproveitamento efetivo em 2024. Em números arredondados, esses 89% se dividem em 20% transformados em material novo, 3% decompostos quimicamente e 67% queimados para gerar calor ou eletricidade. Só cerca de um quinto virou material novo. O instituto também estima que cerca de 60% do plástico contado como reciclagem de material foi exportado. Hoje ele calcula esse número com um método revisado e o apresenta como uma faixa.
A Coreia do Sul conta de forma parecida. Segundo dados do ministério entregues à Assembleia Nacional e noticiados em setembro de 2026 pelo Korea JoongAng Daily, 65% do lixo plástico sul-coreano foi contado como reciclado em 2024. Mas só 26% virou material novo, 38% foi queimado para gerar energia e 1% foi decomposto quimicamente. O governo está avaliando deixar de contar a queima como reciclagem, o que aproximaria sua forma de contar da usada na Europa e nos Estados Unidos.
Os Estados Unidos contam a queima para gerar energia separadamente da reciclagem, e o número da União Europeia não inclui a queima. Queimar plástico para gerar energia recupera parte do seu valor na forma de calor ou eletricidade. Só que, depois disso, o plástico deixa de existir, e não é isso que as pessoas esperam quando jogam uma garrafa na lixeira.

O que os 42% da Europa medem?
Em 2023, a União Europeia reciclou 42,1% dos seus resíduos de embalagens plásticas, segundo o Eurostat, o serviço de estatística da UE. Esse número cobre apenas embalagens, e não todo o plástico. Inclui as que vêm de empresas e do governo, além das casas, e não conta a queima. Desde 2020, a UE mede a reciclagem no ponto em que o material entra no processo de reciclagem, e não no ponto em que sai da central de triagem. Segundo o Eurostat, essa mudança provocou uma queda de 3,4% na reciclagem.
A forma de contar faz diferença. Contando o que vai para a lixeira, o número é alto. Contando o que entra na recicladora, ele é menor. Contando só o que vira material novo, é menor ainda.

Afinal, o que acontece com a garrafa que você acabou de pôr na reciclagem?
Nenhuma média nacional consegue dizer o que acontece com uma garrafa específica. Isso depende da central de triagem da região e de haver alguém comprando aquele material naquele momento. O que os números mostram é um padrão que se repete ano após ano : o plástico volta como plástico novo quando alguém o compra, o que na prática quer dizer sobretudo garrafas transparentes e galões de leite. E uma taxa de reciclagem alta pode incluir plástico que foi queimado.
As regras estão sendo disputadas agora mesmo. A Califórnia aprovou uma lei, a SB 343, que proíbe o símbolo de reciclagem em embalagens que não são recicladas de fato. Em 14 de julho de 2026, antes de a lei entrar em vigor, um juiz federal concedeu uma liminar que impede o estado de aplicá-la enquanto o processo continua. Essa não é uma decisão final sobre a lei. A Coreia do Sul está revendo sua forma de contar. Os países que negociam um tratado global sobre plásticos ainda não chegaram a um acordo, e a próxima rodada de negociações está proposta para março de 2027.
Algo que dá para contar a um colega : a lixeira de recicláveis manda o plástico para a triagem, e ele só vira plástico novo se alguém o comprar. Quando ouvir falar de uma taxa de reciclagem, pergunte o que foi contado.









