O lado dos parques da Disney lucra mais que o dobro do lado das telas
Pergunte a quase qualquer pessoa de onde vem o dinheiro da Disney e a resposta será : dos filmes. Mickey Mouse, Frozen, Marvel e Star Wars nasceram todos numa tela. As contas da própria Disney dizem outra coisa. No ano encerrado em 27 de setembro de 2025, a parte da Disney que administra os parques temáticos, os navios de cruzeiro e os produtos licenciados teve US$ 9.995 milhões de lucro operacional, cerca de US$ 10,0 bilhões, um recorde para essa parte da empresa. A parte que produz filmes, mantém canais de TV e opera o Disney+ e o Hulu teve US$ 4.674 milhões, cerca de US$ 4,7 bilhões.
Lucro operacional é o que sobra das vendas de um negócio depois de pagos os custos de funcionamento, antes de juros e impostos. Nos relatórios oficiais, é o indicador que chega mais perto de mostrar onde o lucro é gerado. Por essa medida, o lado dos parques da Disney ganhou mais que o dobro de tudo o que a empresa põe nas telas. Os esportes, quase todos da ESPN, aparecem à parte e renderam US$ 2.882 milhões.
Nenhum dos dois lados é só parque temático ou só cinema, e a Disney não publica o lucro dos parques sozinhos nem o dos filmes sozinhos. Por isso a comparação aqui é entre as duas partes da empresa que abrigam cada um deles.

O que fica de cada lado nas contas da Disney
A Disney chama o lado dos parques de Experiences, ou Experiências. Ele vai além das atrações dos parques. Inclui o Walt Disney World, na Flórida, a Disneylândia, na Califórnia, e os resorts da Disney em outros países, a Disney Cruise Line, o Disney Vacation Club e os produtos de consumo e jogos, ou seja, os brinquedos, roupas e jogos com personagens da Disney, muitos deles fabricados por outras empresas sob licença. Neste texto, "parques" é o nome curto para tudo isso.
O outro lado se chama Entertainment, ou Entretenimento. Reúne as redes de TV, como a ABC, os serviços de streaming Disney+ e Hulu, e os estúdios de cinema. Os filmes não têm uma linha própria. Para ver quanto o cinema rende, é preciso olhar dentro de Entretenimento.

A linha mais próxima do negócio de cinema da Disney lucrou US$ 392 milhões
Dentro de Entretenimento, a Disney informa três resultados. As redes de TV lucraram US$ 2.955 milhões no ano fiscal de 2025. Disney+ e Hulu lucraram US$ 1.327 milhões. A terceira linha, chamada Content Sales/Licensing and Other, reúne o lançamento de filmes nos cinemas, a venda e o aluguel de filmes e séries para ver em casa e o licenciamento para outros canais e serviços de streaming, além de música, espetáculos de teatro e a empresa de efeitos especiais Industrial Light & Magic. Ela faturou US$ 8.488 milhões, dos quais US$ 2.592 milhões vieram dos cinemas, e ficou com US$ 392 milhões de lucro.
Esse número não é o mesmo que o lucro dos filmes da Disney. A Disney distribui o custo de produzir um filme entre os negócios de Entretenimento segundo quanto ela estima que vale cada forma de exibi-lo, então um filme que vai para o Disney+ leva parte do custo para lá. O marketing dos lançamentos no cinema é contabilizado quando é gasto, o que pode fazer um filme aparecer no prejuízo antes mesmo da estreia. A linha também oscila com os lançamentos de cada ano : no último trimestre do ano fiscal de 2025, a Disney disse que os resultados de Entretenimento caíram principalmente porque seus filmes tiveram desempenho pior que os do ano anterior. Ainda assim, US$ 392 milhões é o que a Disney publica de mais parecido com um negócio de cinema, e é pouco perto dos parques.

As telas da Disney vendem mais, mas ficam com menos
Pelo faturamento, a ordem se inverte. Entretenimento faturou US$ 42.466 milhões no ano fiscal de 2025, mais que Experiências, com US$ 36.156 milhões. O lado das telas é o negócio maior em vendas e o menor no que sobra. Em cada dólar vendido, a parte que vira lucro nos parques é mais que o dobro da parte que vira lucro nas telas.
Parte da explicação está em como cada negócio funciona. Um filme ou uma série é pago antes de alguém saber se vai dar certo, e boa parte da receita chega numa janela curta depois do lançamento. Um parque, um navio ou uma linha de brinquedos licenciados continua vendendo os mesmos personagens ano após ano. Parques também não são baratos, já que atrações, hotéis e navios custam muito para construir e manter. Mas, depois de prontos, continuam vendendo todos os dias, faça ou não sucesso o filme novo daquele ano.
Há uma ressalva nessa comparação. O lucro operacional não desconta o que a Disney gasta construindo novas atrações, hotéis e navios, então não mostra quanto dinheiro esse investimento traz de volta.

Mesmo no ano recorde de bilheteria da Disney, os parques lucraram mais
Não é um acaso de um ano só. Antes de 2020, a Disney apresentava seus estúdios de cinema num segmento próprio, chamado Studio Entertainment, o que permite a comparação mais direta disponível. No ano fiscal de 2018, os estúdios lucraram US$ 3.004 milhões e o lado dos parques, US$ 6.095 milhões. No ano fiscal de 2019, os estúdios lucraram US$ 2.686 milhões e os parques, US$ 6.758 milhões. A Disney reorganizou seus segmentos desde então, por isso esses anos não se comparam exatamente com o ano fiscal de 2025.
O ano fiscal de 2019 foi o de Vingadores : Ultimato, O Rei Leão e Toy Story 4. Pelas contas dos serviços de acompanhamento de bilheteria divulgadas na época, os filmes da Disney arrecadaram US$ 11,12 bilhões nos cinemas do mundo todo ao longo de 2019, e a Disney se tornou o primeiro estúdio a passar de US$ 10 bilhões num ano. Isso é venda de ingressos num ano civil, não lucro da Disney no seu ano fiscal. Mesmo naquele ano, os parques lucraram mais que o dobro dos estúdios. E nenhum dos dois era o maior negócio da Disney na época. O maior eram as redes de TV, com US$ 7.479 milhões.

Quando os parques fecharam, foi a TV que segurou a Disney
O único período em que a ordem se inverteu foi a pandemia. Com os parques fechados ou funcionando com capacidade reduzida, o lado dos parques lucrou só US$ 455 milhões no ano fiscal de 2020 e US$ 471 milhões no ano fiscal de 2021, segundo o que a Disney informou na época. A Disney apresentava então cinema, TV e streaming juntos num único segmento, que lucrou US$ 7.653 milhões e US$ 7.295 milhões, e por isso pode parecer que os filmes assumiram a liderança.
Não assumiram. Os cinemas também estavam fechados. Dentro desse segmento, as redes de TV lucraram US$ 9.413 milhões e US$ 8.407 milhões, enquanto a linha de cinema e licenciamento caiu de US$ 1.153 milhões para US$ 567 milhões e o recém-lançado Disney+ ainda dava prejuízo. Foi a TV que sustentou a Disney naqueles anos. Quando os parques reabriram, voltaram ao topo, e no ano fiscal de 2024 o lado dos parques lucrou US$ 9.272 milhões.

Os filmes da Disney criam os personagens que rendem em outros lugares
Nada disso quer dizer que os filmes não importam. Os filmes criam os personagens, e os parques, os navios e os brinquedos são onde esses personagens continuam gerando dinheiro por décadas. As próprias contas da Disney registram esse vínculo. Parte do que o lado dos parques ganha licenciando personagens para produtos volta para Entretenimento na forma de royalties, embora a Disney não diga quanto.
A frase para levar, então, é esta. Pelos números que a Disney divulga, o lado da empresa que administra os parques ganha há anos mais do que o lado que faz os filmes, com exceção do período em que a pandemia manteve os parques fechados. Os filmes continuam abastecendo parques, navios e brinquedos com personagens. Quanto dessa renda posterior deveria ser creditado a cada filme é algo que as contas não mostram. A Disney não publica quanto um filme rende sozinho, nem quanto da renda dos parques vem de cada personagem, então não dá para calcular, de fora da empresa, o retorno completo de um filme.








