Revender um diamante raramente devolve o que se pagou
Quem pergunta se um diamante perdeu valor parte do princípio de que um dia ele manteve esse valor. As evidências dizem que, na maioria dos casos, não manteve, e essa distância entre o que se paga e o que se recebe é muito mais antiga que os diamantes de laboratório.
Em 1982, o escritor Edward Jay Epstein contou o que acontecia quando pessoas comuns tentavam vender seus diamantes, numa reportagem de capa da revista americana The Atlantic chamada “Have You Ever Tried to Sell a Diamond?” (“Você já tentou vender um diamante?”). Num dos casos, de 1974, um comprador em Londres pagou £ 2.595 a um comerciante de boa reputação por uma pedra de 1,4 quilate, decidiu vendê-la uma semana depois e a melhor oferta que recebeu foi de £ 1.000. Um comprador de diamantes de Nova York disse a Epstein que um anel de meio quilate que custasse talvez US$ 2.000 numa joalheria poderia ser vendido à empresa dele por apenas US$ 600.
São casos reunidos por um repórter e estimativas de pessoas do ramo. Não formam uma pesquisa e não dizem que parte do preço um dono recuperaria hoje.
Nada disso foi um colapso do mercado. Era o modo como o preço de um diamante sempre tinha sido construído.

Por que o preço da loja e a oferta de quem compra são dois preços diferentes
Uma loja compra suas pedras no atacado e acrescenta a própria margem. Epstein relatou que a margem sobre um diamante e sua armação podia ir de 100% a 200%, conforme a loja.
Quando você vende, fica do outro lado dessa margem. O comprador de Nova York entrevistado por Epstein disse que sua empresa podia pagar, em geral, no máximo 90% do preço de atacado do momento, e muitas vezes menos, porque a armação é vendida como sucata e o comprador deixa uma folga para erros. As lojas, escreveu Epstein, em geral preferiam nem recomprar pedras, porque a oferta honesta pareceria um insulto ao lado da nota fiscal.
A nota registra, portanto, o preço de varejo. Uma oferta de recompra é feita a preço de atacado ou abaixo dele. Os dois valores nunca iriam coincidir.

Uma só empresa decidia quantos diamantes chegavam ao mercado
Os diamantes saem das minas como pedras brutas e são lapidados e polidos antes de chegar a uma loja. Durante a maior parte do século 20, quase toda essa oferta bruta passou por uma só empresa, a De Beers. Segundo o Instituto Gemológico da América (GIA), em 1900 a De Beers já controlava cerca de 90% da produção mundial de diamantes brutos.
Ter a maior parte da oferta permitia à De Beers decidir quanto chegava ao mercado e, assim, manter os preços estáveis. Epstein descreveu como, quando a União Soviética começou a extrair diamantes, a De Beers lhe ofereceu um “canal único” para vendê-los, em vez de competir no preço.
Esse papel ficou em grande parte para trás. O GIA afirma que a De Beers “reduziu muito seu papel de guardiã da oferta de diamantes” e que hoje os diamantes chegam ao mercado por muitos canais, e não por um só.

“Um diamante é para sempre”, lido como “nunca venda”
Controlar a oferta era metade do trabalho. A outra metade era garantir que as pedras já vendidas nunca voltassem ao mercado para concorrer com as novas.
Em 1938, a De Beers contratou a N. W. Ayer, uma agência de publicidade americana. Um plano estratégico da agência de 1947, citado por Epstein, propunha fazer do anel de noivado “uma necessidade psicológica”. A De Beers atribui a Frances Gerety, redatora da agência, a autoria da frase “A Diamond Is Forever” (“Um diamante é para sempre”), em 1947. A frase apareceu em anúncios pela primeira vez em 1948.
A leitura que Epstein faz da frase é direta. A ideia, escreveu ele, era que os diamantes fossem eternos “no sentido de que nunca deveriam ser revendidos”. Essa é a interpretação dele sobre a campanha, e não há registro de que a autora da frase tenha dito isso. Na leitura de Epstein, uma pedra guardada na gaveta a vida inteira não tem como derrubar o preço da próxima.
Nos EUA, diamante de laboratório é diamante, desde que identificado como tal
Hoje é possível cultivar diamantes em fábricas, com o mesmo cristal de carbono de uma pedra extraída de mina. Em julho de 2018, a Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) revisou seus Jewelry Guides, as orientações que dá aos vendedores de joias. A nova definição de diamante não traz mais a palavra “natural”, de modo que uma pedra cultivada se encaixa nela.
Há uma condição. As orientações consideram desleal ou enganoso usar o nome de uma gema para uma pedra cultivada, a menos que o nome venha logo depois de uma expressão como “laboratory-grown” ou “laboratory-created” (cultivado ou criado em laboratório), impressa com o mesmo destaque.
Há também um limite. As orientações dizem que “não obrigam a FTC nem o público”. Elas expressam o entendimento do órgão sobre o que enganaria um comprador, e não são uma lei em si, embora uma alegação que as contrarie ainda possa levar a FTC a abrir um processo com base na lei que ela aplica.
Quando cultivar diamantes virou coisa de qualquer um, o preço não parou de cair
A própria De Beers tentou vender diamantes cultivados. Sua marca Lightbox foi lançada em 2018 com um preço fixo ao consumidor de US$ 800 por quilate, a unidade de peso dos diamantes.
Em 8 de maio de 2025, a De Beers anunciou que fecharia a Lightbox. A empresa disse que os preços de atacado dos diamantes de laboratório para joalheria tinham caído 90% desde o lançamento da marca. Trata-se de uma queda nos preços de atacado, não de uma queda a partir dos US$ 800 que a Lightbox cobrava do consumidor. O presidente-executivo da empresa, Al Cook, disse à revista do setor JCK que pedras de laboratório já podiam ser compradas “em supermercados por US$ 200”.
O analista Edahn Golan acompanha os preços de atacado dos diamantes de laboratório desde julho de 2018. Na lista de preços do 2º trimestre de 2026, publicada em 7 de julho de 2026, o índice dele estava 96% abaixo do ponto de partida, e os preços, 13% menores que um ano antes. Os números dele também mostram que a queda está perdendo força, com as pedras redondas de um quilate 1% mais caras que no ano anterior. Uma pedra que pode ser fabricada em quantidades cada vez maiores perdeu a escassez que antes sustentava o preço dos diamantes.

Preço do diamante natural : os índices não concordam
Para os diamantes extraídos de minas não existe um preço único, e quem o mede relata coisas diferentes.
Segundo números da própria De Beers, publicados em 30 de julho de 2026, seu índice médio de preços de diamantes brutos ficou 16% mais baixo no primeiro semestre de 2026 do que um ano antes, e o preço médio obtido por quilate caiu de US$ 155 para US$ 105. A De Beers disse que parte dessa queda maior veio de uma mudança na combinação de pedras que vendeu.
A Rapaport, um serviço de preços do setor que acompanha pedras lapidadas, afirmou em 4 de fevereiro de 2026 que “a demanda por diamantes está permanentemente mais baixa por causa dos sintéticos, da desaceleração da China e de mudanças sociais como a queda nas taxas de casamento”. Em 6 de outubro de 2026, já registrava a segunda alta mensal seguida para pedras de um quilate, de 0,3% em setembro, e seu índice para pedras de 0,30 quilate acumulava alta de 15,1% desde o início do ano. Esse índice acompanha os preços pedidos pelos vendedores de uma seleção de pedras lapidadas, não vendas concluídas, preços de loja ou o que é oferecido a um dono.
Esses números medem coisas diferentes : pedras brutas ou lapidadas, tamanhos pequenos ou grandes, a média de um semestre ou um único mês. Lidos em conjunto, dizem que os preços dos naturais caíram muito e que alguns começaram a se estabilizar. Não dão um número único para quanto vale um diamante hoje, e nenhum deles diz a um dono quanto renderia o próprio anel.

A empresa que mantinha o sistema de pé está à venda
Em maio de 2001, os acionistas da De Beers aprovaram uma compra de US$ 18,7 bilhões por um grupo que incluía a mineradora Anglo American e a família Oppenheimer, segundo a JCK na época ; a primeira oferta tinha sido de US$ 17,6 bilhões. Mais tarde, a Anglo American passou a deter 85% da De Beers.
Desde então, a Anglo American reduziu três vezes o valor da De Beers em seu balanço. Depois do corte mais recente, anunciado em fevereiro de 2026, a Anglo avalia o negócio inteiro da De Beers em US$ 2,3 bilhões no balanço, contra US$ 9,2 bilhões em 2023 ; a parte da própria Anglo nesse valor é de US$ 1,9 bilhão. A receita da De Beers caiu para US$ 1,6 bilhão no primeiro semestre de 2026, ante US$ 2,0 bilhões um ano antes.
A Anglo American escolheu um comprador preferencial : o Global Diamond Consortium, liderado por Gareth Penny, ex-presidente-executivo da De Beers. Em 29 de julho de 2026, a Bloomberg informou um preço de cerca de US$ 1 bilhão pelos 85% da Anglo, sendo uns US$ 750 milhões à vista e US$ 250 milhões depois, e disse que os termos não eram definitivos. No dia seguinte, o presidente-executivo da Anglo, Duncan Wanblad, disse que a empresa estava nas rodadas finais de negociação e esperava assinar até o fim do ano. Em 7 de outubro de 2026, ele disse que as negociações continuavam.
O governo de Botsuana, que detém os outros 15% da De Beers, precisa aprovar a venda ; é do país que saem mais de 70% dos diamantes da empresa. O ministro do país disse que a venda provavelmente seria concluída até o último trimestre de 2026, sujeita a condições. Até 8 de outubro de 2026, não encontramos nenhum anúncio da Anglo American de que um acordo tivesse sido assinado.

- Shareholders OK De Beers buyout (JCK)
- Anglo American, De Beers 1Q 2026 (JCK)
- Anglo American 2025 annual results script
- Interim financial results for 2026 (De Beers Group)
- Anglo American mulling $1B De Beers sale (Rapaport)
- Anglo picks Gareth Penny-led consortium as top De Beers bidder (Rapaport)
- Ex-De Beers chief leads bid for diamond giant (Mining.com)
- De Beers second half 2026 (JCK)
O que a nota fiscal pagava de verdade
O preço de um diamante na loja nunca foi uma promessa do que alguém pagaria por ele depois. Duas coisas distintas explicam por quê. A primeira é a diferença entre comprar e vender : a margem da loja e um comprador que precisa revender a pedra e deixa uma folga para erros. Essa diferença existiria mesmo sem a De Beers. A segunda é o próprio nível dos preços, que a De Beers sustentou por décadas limitando a oferta e com uma publicidade que, na leitura de Epstein, ensinou os compradores a nunca vender.
Os diamantes de laboratório e a venda da De Beers mexem com a segunda. As pedras cultivadas enfraqueceram a ideia de que diamantes são raros, e a empresa que comandava o sistema está sendo vendida. Nenhuma das duas coisas muda a primeira. Os exemplos antigos mostram como essa diferença podia ser grande, mas ninguém tem hoje um número único que diga qual é o tamanho dela. A pedra na gaveta continua a mesma. A nota registrou quanto custou comprá-la, e isso nunca foi o preço de vendê-la de novo.










