Menos de um quinto das vendas da Amazon e mais da metade do lucro operacional
A Amazon divide seus resultados em três segmentos : América do Norte, Internacional e AWS. A AWS aluga capacidade de computação, armazenamento de dados e bancos de dados pela internet, o que se costuma chamar de computação em nuvem. Seus clientes são empresas, startups, governos e universidades. Os outros dois segmentos são a Amazon que a maioria das pessoas conhece : as lojas on-line e físicas, as vendas de lojistas parceiros, a publicidade e assinaturas como o Prime.
A medida usada aqui é o lucro operacional : o que sobra das vendas depois de pagos os custos de tocar o negócio, antes de juros, ganhos e perdas com investimentos e impostos. É um tipo de lucro, mas não o resultado final da empresa (mais sobre isso adiante).
Em 2025, a AWS teve US$ 128,7 bilhões em vendas, de um total de US$ 716,9 bilhões da Amazon, ou seja, 18%. Seu lucro operacional foi de US$ 45,6 bilhões, de um total de US$ 80,0 bilhões, ou seja, 57%. Em todos os anos de 2014 a 2025, a AWS ficou com menos de um quinto das vendas da Amazon e com mais da metade do lucro operacional. E os 57% de 2025 são, na verdade, a menor fatia de todo esse período.

Quando uma parte é maior que o todo
A AWS faz parte da Amazon, então só pode lucrar mais do que a Amazon inteira se o restante da empresa tiver prejuízo. Isso aconteceu três vezes : em 2014, 2017 e 2022. Daqui em diante, todos os valores são de lucro operacional, em dólares da época, e "todo o resto" quer dizer América do Norte mais Internacional.
Em 2014, a AWS lucrou US$ 0,5 bilhão, enquanto a Amazon como um todo lucrou US$ 0,2 bilhão. Todo o resto, portanto, perdeu US$ 280 milhões, cerca de US$ 0,3 bilhão. Em 2017, a AWS lucrou US$ 4,3 bilhões e a Amazon, US$ 4,1 bilhões, e todo o resto perdeu US$ 225 milhões, cerca de US$ 0,2 bilhão. Em 2022, de longe o ano de maior prejuízo, a AWS lucrou US$ 22,8 bilhões, a Amazon US$ 12,2 bilhões, e todo o resto perdeu US$ 10,6 bilhões. Esse ano tem uma seção própria mais abaixo.
Para comparar, em 2025 a AWS lucrou US$ 45,6 bilhões dos US$ 80,0 bilhões da Amazon, e todo o resto lucrou US$ 34,4 bilhões. Nos demais anos, o restante da Amazon deu lucro, mas a AWS ainda respondeu pela maior parte do total.
Dentro de "todo o resto", os dois segmentos tiveram trajetórias diferentes. A América do Norte só teve prejuízo em um dos doze anos : 2022. O segmento Internacional teve prejuízo em nove dos doze anos e só deu lucro em 2020, 2024 e 2025. Assim, os prejuízos de 2014 e 2017 foram perdas do Internacional que o lucro da América do Norte não conseguiu cobrir.
2022 : o ano em que a nuvem carregou a Amazon nas costas
Em 2022, a AWS teve US$ 22,8 bilhões de lucro operacional, e a Amazon como um todo, US$ 12,2 bilhões. Todo o resto perdeu US$ 10,6 bilhões : a América do Norte perdeu US$ 2,8 bilhões e o Internacional, US$ 7,7 bilhões.
O relatório anual da Amazon referente a 2022 (o formulário 10-K, entregue ao regulador do mercado americano) aponta o mesmo motivo principal para duas coisas : a América do Norte ter passado a dar prejuízo e o prejuízo do Internacional ter aumentado em relação a 2021. Segundo o relatório, isso se deveu "principalmente ao aumento dos custos de processamento de pedidos e de envio, em parte por causa do aumento dos investimentos em nossa rede de distribuição, dos custos de transporte e dos salários e incentivos", além de custos maiores com tecnologia e conteúdo. Naquele ano, a Amazon também registrou cerca de US$ 1,1 bilhão em baixas contábeis, a maior parte em lojas físicas.
Na carta aos acionistas de 2022, o presidente-executivo Andy Jassy descreveu o contexto. No início da pandemia, a demanda cresceu tão depressa que a Amazon teve de dobrar, em "cerca de dois anos", a área de centros de distribuição que tinha construído ao longo de 25 anos. Ele escreveu que uma rede que cresceu tão rápido precisava de muitos ajustes e chamou de desafio crítico o aumento do custo de levar um produto até o cliente. Essa é a versão da própria Amazon. Ela mostra uma das pressões, não explica tudo.
Depois, o resto da Amazon se recuperou
De 2022 a 2025, o lucro operacional de todo o resto subiu US$ 45,0 bilhões, de um prejuízo de US$ 10,6 bilhões para um lucro de US$ 34,4 bilhões. No mesmo período, o lucro operacional da AWS cresceu US$ 22,8 bilhões. O restante da Amazon acrescentou mais do que a AWS, e a fatia da AWS no total caiu para 57%.
O 10-K da Amazon referente a 2025 atribui os aumentos daquele ano na América do Norte e no Internacional, em relação a 2024, principalmente ao maior número de unidades vendidas e ao crescimento da publicidade, em parte compensados por custos mais altos. Os números de 2025 também incluem gastos não recorrentes, como uma despesa de US$ 2,5 bilhões para encerrar com acordo um processo movido pela Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC), contabilizada no segmento América do Norte.

Por que os 35 centavos por dólar da AWS e os 6 centavos do resto da Amazon não se comparam diretamente
Em 2025, cada dólar de vendas da AWS deixou cerca de 35 centavos de lucro operacional. Cada dólar de vendas do restante da Amazon (US$ 588,2 bilhões no total) deixou cerca de 6 centavos.
Um dos motivos que tornam esses dois números difíceis de comparar é a forma de contar as vendas. Quando a própria Amazon vende um produto, suas vendas incluem o preço cheio do item. Quando a venda é feita por um lojista parceiro, a Amazon conta apenas as taxas que cobra. As vendas da AWS são todas de serviços. Assim, as vendas do restante da Amazon incluem mercadorias que ela compra e revende, e sua margem é calculada sobre uma base muito maior. Os relatórios da Amazon não dizem quanto da diferença isso explica. Os centavos por dólar mostram quanto cada parte reteve do que declarou como vendas, não qual negócio é mais bem administrado.
Escolhas contábeis também mexem nos números
Todos os valores são os declarados pela Amazon, e parte das variações de um ano para outro vem de estimativas contábeis. Uma que reaparece com frequência é a vida útil esperada dos servidores, que define quanto do custo deles entra como despesa a cada ano :
2022 : a Amazon aumentou a vida útil dos servidores de quatro para cinco anos e a dos equipamentos de rede de cinco para seis. Isso reduziu a despesa de depreciação e amortização em US$ 3,6 bilhões na empresa toda. A Amazon cita essa mudança como um dos motivos da alta do lucro operacional da AWS naquele ano.
2024 : a vida útil dos servidores passou de cinco para seis anos, o que reduziu a despesa de depreciação e amortização em US$ 3,2 bilhões, principalmente na AWS.
2025 : a vida útil de parte dos servidores e equipamentos de rede voltou de seis para cinco anos. A Amazon citou o ritmo acelerado de desenvolvimento da inteligência artificial. Isso acrescentou US$ 1,4 bilhão à despesa de depreciação e amortização, principalmente na AWS.

O que estes números não mostram
Lucro operacional não é o resultado final. O lucro líquido, calculado depois de juros, investimentos e impostos, pode contar outra história. Em 2022, a Amazon teve prejuízo líquido de US$ 2,7 bilhões. Esse resultado inclui uma perda de US$ 12,7 bilhões com a queda no valor de mercado de sua participação na Rivian Automotive, que fica fora do lucro operacional.
A divisão entre segmentos segue as regras da própria Amazon. Custos compartilhados, como tecnologia e infraestrutura, são distribuídos entre os segmentos conforme o uso, por métodos que a Amazon define e pode mudar.
Os valores são anuais, em dólares da época, sem correção pela inflação. Isso pesa quando se compara o crescimento entre anos diferentes. As fatias comparam vendas e lucro de um mesmo ano.
Como este texto foi feito
Lemos as tabelas por segmento dos relatórios anuais 10-K da Amazon referentes a 2016, 2017, 2018, 2021, 2024 e 2025. Cada relatório cobre três anos. Onde os relatórios se sobrepunham, traziam os mesmos números. Em todos os anos, os três segmentos somam exatamente o total da Amazon, e os totais conferem com os dados que a Amazon entregou em formato legível por máquina à SEC, o órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos. Os dados de 2014 vêm do relatório de 2016, que os apresenta com o mesmo critério dos anos seguintes. O relatório de 2015 usava uma medida de segmento mais antiga, por isso não o usamos. As explicações da Amazon sobre 2022 vêm do seu 10-K referente a 2022.
- Amazon.com, Inc., Form 10-K for 2016, via SEC EDGAR
- Amazon.com, Inc., Form 10-K for 2017, via SEC EDGAR
- Amazon.com, Inc., Form 10-K for 2018, via SEC EDGAR
- Amazon.com, Inc., Form 10-K for 2021, via SEC EDGAR
- Amazon.com, Inc., Form 10-K for 2022 (2022 segment results, server lives, write-downs, Rivian), via SEC EDGAR
- Amazon.com, Inc., Form 10-K for 2024 (2024 server-life change), via SEC EDGAR
- Amazon.com, Inc., Form 10-K for 2025 (2025 results, server-life change, FTC charge, how sales are counted), via SEC EDGAR
- SEC EDGAR company facts for Amazon (totals cross-check, 2022 net loss)








