O que está sendo medido
Margem bruta é a receita menos o custo dos produtos vendidos, dividida pela receita. Nessas duas empresas, esse custo é sobretudo o de fabricar o que foi vendido : depreciação das fábricas, mão de obra, materiais e despesas gerais, além de encargos como a baixa contábil de chips que não foram vendidos. Uma margem de 60% significa que, de cada US$ 100 vendidos, sobram US$ 60 depois de descontados esses custos.
Não é o lucro total : pesquisa, despesas comerciais e administrativas, juros e impostos são descontados depois. Aqui, as margens das duas empresas são calculadas da mesma forma, a partir dos números que elas declaram segundo as normas contábeis americanas (GAAP).
São negócios muito diferentes. A Micron, sediada em Idaho, nos Estados Unidos, fabrica memória : DRAM, a memória de trabalho de computadores, celulares e servidores, e NAND, o armazenamento de celulares e de discos SSD. A Nvidia projeta processadores gráficos e de IA e vende os sistemas montados em torno deles.
Por que a margem da Micron oscila tanto
O relatório anual da Micron referente ao ano fiscal de 2026 aponta dois motivos. Os preços da memória mudam muito : nos últimos cinco anos fiscais da empresa, a variação anual dos preços médios de DRAM e NAND foi de uma alta de cerca de 200% a uma queda de cerca de 50%. Os custos não acompanham esse movimento. A Micron tem fábricas próprias de chips e afirma que "uma parcela significativa dos nossos custos de fabricação é fixa". Produzir menos chips encarece cada um deles.
A Nvidia se define como "uma empresa de semicondutores sem fábrica própria" : projeta os chips e paga outras empresas para fabricá-los. Seus documentos oficiais não dizem quanto da sua margem mais estável vem disso.
De 2011, início do gráfico, até o fim de 2025, a Micron ficou à frente da Nvidia em apenas três trimestres do calendário, dois seguidos em 2018 e um em 2022, sempre por menos de 4 pontos percentuais. Em 2022 foi a Nvidia que caiu : seu relatório anual atribui a margem bruta menor daquele ano fiscal principalmente a US$ 2,17 bilhões em encargos por excesso de estoque e por chips que a empresa havia se comprometido a comprar, mas de que já não esperava precisar (o relatório não detalha esse valor por trimestre).
2023 : quando os custos da Micron superaram a receita
O relatório da Micron referente aos três meses encerrados em 2 de março de 2023 diz que as condições haviam "se deteriorado acentuadamente". Os clientes estavam consumindo os estoques que tinham acumulado, e os preços de DRAM e NAND caíram. A receita foi de US$ 3,69 bilhões; o custo dos chips vendidos, de US$ 4,90 bilhões. São US$ 133 de custo para cada US$ 100 vendidos, uma margem de −32,7%, o primeiro de quatro trimestres abaixo de zero. A Micron reduziu a produção e os gastos com equipamentos e disse que previa cortar cerca de 15% do quadro de funcionários.
Boa parte desses −32,7% vem de um único lançamento contábil. Os custos incluíam uma baixa de US$ 1,43 bilhão em chips em estoque : quando a Micron espera vender um estoque por menos do que custou para produzir, registra a perda imediatamente, antes de os chips serem vendidos. Sem essa baixa, um cálculo simples nosso deixa o trimestre em cerca de +6,1% : uma margem estreita, mas acima de zero. Como a perda foi contabilizada antecipadamente, as vendas seguintes pareceram melhores : a Micron diz que a margem do ano fiscal de 2024 incluiu um ganho de US$ 987 milhões com a venda de chips que haviam sofrido baixa ao longo de 2023.

Como a margem da Micron se recuperou
Nos anos fiscais da empresa, que terminam por volta de 1º de setembro, a Micron declara margens brutas de 22% em 2024, 40% em 2025 e 81% em 2026. Para 2026, aponta os preços como motivo principal : preços médios de venda cerca de 180% mais altos para DRAM e cerca de 200% para NAND em relação ao ano anterior. Uma combinação de produtos mais favorável e custos unitários menores também ajudaram a elevar a margem.
Parte dessa combinação é a HBM (memória de alta largura de banda), DRAM empilhada feita para sistemas de IA. Segundo a Micron, ela exige mais lâminas de silício e mais espaço de sala limpa do que a DRAM comum para produzir a mesma quantidade de memória com a mesma geração de tecnologia de fabricação. Cerca de 60% da receita da Micron no ano fiscal de 2026 veio de data centers.
"O crescimento da demanda por memória e armazenamento impulsionado pela IA está superando a oferta do setor", afirma a Micron. Essa é a explicação da empresa. Os dados de margem mostram quando a subida aconteceu, não quanto dela se deve à IA.

Quanto a Micron está à frente da Nvidia, e com que segurança
Os trimestres das duas empresas terminam em datas diferentes, por isso o gráfico coloca cada um no trimestre do calendário em que cai a maior parte dele. Os dois trimestres do par mais recente coincidem em apenas 32 dias : o da Micron encerrado em 28 de maio de 2026, com 84,6%, e o da Nvidia encerrado em 26 de julho de 2026, com 75,0%.
A vantagem da Micron, porém, não depende desse pareamento. O trimestre seguinte da Micron, encerrado em 3 de setembro, fechou em 86,8% (teve 14 semanas, porque o ano fiscal da Micron teve 53 semanas). Os dois trimestres da Micron superam os 78,4%, o melhor resultado da Nvidia nestes dados, registrado no trimestre encerrado em abril de 2024.
Já a queda da Nvidia, para 60,5% no trimestre encerrado em abril de 2025, teve duas causas principais, segundo seu relatório trimestral : um encargo de US$ 4,5 bilhões referente a chips H20 e a compromissos de compra, depois que o governo americano passou a exigir licença para vendê-los à China, e o início da produção de sistemas mais complexos para data centers.

O que isto não mostra
Margem maior não quer dizer empresa maior. No trimestre encerrado em setembro, a Micron teve receita de US$ 54,2 bilhões e lucro bruto de US$ 47,0 bilhões. A Nvidia, no trimestre encerrado em julho, teve US$ 96,2 bilhões e US$ 72,1 bilhões, respectivamente. O trimestre da Micron durou uma semana a mais, e mesmo assim a Nvidia faturou mais. Nesses trimestres mais recentes, a Micron ficou com a maior fatia de cada venda, não com o maior total.
Por enquanto, a ordem se repete um degrau abaixo, na margem operacional. Essa margem, que desconta ainda pesquisa, despesas comerciais e administrativas e outros itens operacionais, foi de 80,7% no trimestre da Micron encerrado em setembro e de 66,2% no da Nvidia encerrado em julho.
A própria Micron avisa que o pico pode não durar. Seu relatório anual diz que, "à medida que nós e outros aumentarmos a oferta, os preços médios de venda poderão cair", e que em alguns períodos passados seus preços "ficaram abaixo dos nossos custos de fabricação". No gráfico, cada um dos picos anteriores da Micron, em 2014, 2018 e 2021, foi seguido de uma queda. É um registro do passado, não uma previsão.

Como os números foram obtidos
Receita, lucro bruto e lucro operacional vêm dos documentos que as empresas entregam à SEC, a comissão que regula o mercado de valores mobiliários dos Estados Unidos, tal como declarados segundo as normas contábeis americanas (GAAP); a única exceção é o nosso cálculo de +6,1% sem a baixa de estoque. Quando o quarto trimestre só aparece dentro do total anual, ele foi calculado como o ano menos os três primeiros trimestres. Motivos, encargos e variações de preço vêm dos relatórios oficiais listados abaixo.
Este texto explica como funciona a margem bruta usando os resultados publicados de duas empresas. Não é recomendação de investimento.
- Micron Technology, annual report (10-K) for the fiscal year ended 3 September 2026, SEC EDGAR
- Micron Technology, quarterly report (10-Q) for the quarter ended 2 March 2023, SEC EDGAR
- Nvidia, quarterly report (10-Q) for the quarter ended 27 April 2025, SEC EDGAR
- Nvidia, annual report (10-K) for the fiscal year ended 29 January 2023, SEC EDGAR
- Micron Technology, SEC company facts (quarterly revenue, gross profit, operating income)
- Nvidia, SEC company facts (quarterly revenue, gross profit, operating income)









