A crosta branca numa pilha AA velha não é ácido
Abra a tampa de um controle remoto esquecido há tempos na gaveta e talvez você encontre isto : uma crosta branca, às vezes azulada, crescendo em volta de uma das pontas da pilha. Quase todo mundo chama isso de ácido da pilha.
Numa pilha alcalina comum, AA ou AAA, a verdade está mais perto do contrário. O líquido dentro de uma pilha alcalina é hidróxido de potássio. Esse líquido, o eletrólito, é o que deixa a corrente passar entre as duas metades da pilha. O hidróxido de potássio é um álcali forte, o oposto químico de um ácido. O manual técnico da Energizer para as suas pilhas alcalinas o identifica como o eletrólito, e a Panasonic o descreve como uma solução fortemente alcalina.
A crosta é o líquido que vazou, transformado em sal pelo ar
Quando esse líquido escapa, encontra o ar, e o ar contém gás carbônico. Os dois reagem e formam carbonato de potássio, um sal branco e cristalino. A página de perguntas frequentes da Panasonic sobre pilhas identifica exatamente isso como o pó e os cristais brancos que aparecem numa pilha alcalina que vazou. O site de divulgação científica The Naked Scientists dá a mesma explicação.
O sal continua alcalino. A Panasonic o chama de substância alcalina potente, solúvel em água, que pode causar queimaduras químicas na pele. A PowerStream, uma empresa de baterias, tem uma visão mais branda e considera seguro o resíduo já transformado. Das duas visões, a mais cautelosa é a das páginas de segurança dos próprios fabricantes, que tratam a crosta como algo a manusear com cuidado.

Uma pilha pode vazar depois de já estar gasta
A maioria dos aparelhos usa duas ou mais pilhas em fila, de modo que a corrente atravessa uma depois da outra. Não existem duas pilhas com exatamente a mesma carga, então uma sempre acaba primeiro.
O aparelho não para no momento em que isso acontece. As pilhas que ainda têm carga continuam empurrando corrente pela que esvaziou. As perguntas frequentes da Energizer sobre pilhas alcalinas descrevem assim : quando a pilha mais fraca se esgota, ela é “descarregada à força pelas pilhas mais fortes até níveis de tensão muito baixos ou negativos, o que aumenta drasticamente o potencial de vazamento”.
Ou seja, a explicação de costume pode estar de trás para frente. Nem sempre foi o vazamento que matou a pilha. Às vezes a pilha vazou porque continuou sendo exigida depois de vazia. Os fabricantes descrevem esse caminho de forma mais direta do que quase qualquer outro, embora nenhuma das fontes diga que parcela dos vazamentos começa assim.
Uma pilha sozinha também pode ser levada longe demais. A Duracell observa que alguns aparelhos continuam puxando energia de pilhas esgotadas, o que pode fazê-las vazar. A Panasonic alerta para pilhas deixadas por muito tempo em aparelhos que não estão totalmente desligados e ainda consomem uma pequena corrente. Elas podem se esgotar e passar do limite de descarga, e isso pode causar vazamento.

Misturar pilhas velhas e novas aumenta a diferença
Tudo o que deixa desiguais as pilhas de um mesmo aparelho torna mais provável que uma delas seja forçada além do fim da carga. A Energizer diz que misturar pilhas novas e usadas, de marcas diferentes ou de tipos químicos diferentes pode aumentar significativamente o potencial de vazamento, porque as capacidades delas não combinam. A Panasonic diz que a diferença entre uma pilha usada e uma nova cresce durante o uso, o que leva à descarga excessiva e ao vazamento. As perguntas frequentes da Duracell orientam a não misturar pilhas velhas e novas, de marcas diferentes ou de tipos diferentes.
A lista da Energizer do que aumenta o risco nas pilhas alcalinas é curta e específica : tentar recarregá-las, misturar tipos químicos, misturar pilhas novas e usadas, danos físicos, exposição prolongada a temperaturas altas e descarga profunda.

Por dentro, a pilha está produzindo gás aos poucos
Mas por que esgotar uma pilha faria com que ela vazasse? O manual da Energizer diz que o gás hidrogênio é um subproduto da reação química em todas as pilhas alcalinas. No uso normal, a quantidade é muito pequena. Tentar recarregar a pilha ou provocar um curto-circuito produz bem mais.
A descarga profunda também entra aqui. O mesmo manual recomenda aos fabricantes de aparelhos que cortem o consumo em 0,8 volt por pilha, ponto em que cerca de 95% da capacidade utilizável já se foi. O motivo apresentado é a maior chance de formação excessiva de gás interno quando pilhas alcalinas são descarregadas a fundo. Trata-se da orientação de projeto da Energizer para as suas próprias pilhas, não de uma tensão em que se saiba que uma pilha vaza.
O gás precisa sair por algum lugar. O manual da Energizer descreve uma vedação de náilon que funciona como válvula de segurança. Quando a pressão a abre, o líquido de dentro pode sair junto com o gás. A PowerStream descreve a mesma sequência : o zinco dentro da pilha decompõe a água lentamente, o hidrogênio aumenta a pressão, e a válvula se abre e empurra o eletrólito para fora.
Esse é um caminho documentado, não a história de todo vazamento. A Panasonic também aponta calor, umidade, curtos-circuitos, impactos e instalação incorreta como coisas que podem fazer uma pilha vazar.

Pilhas que nunca foram usadas também podem vazar, mas é mais raro
Os fabricantes descrevem vazamentos no armazenamento normal como incomuns. As perguntas frequentes da Energizer sobre pilhas alcalinas dizem que elas normalmente não vazam em condições normais de armazenamento e uso.
Segundo eles, o que muda esse quadro são o calor, a umidade e o tempo. A Panasonic aponta temperatura alta e umidade alta como os fatores mais importantes para vazamentos em pilhas não usadas, e também cita curtos-circuitos acidentais e impactos. O manual da Energizer acrescenta que alternâncias repetidas entre calor e frio extremos fazem as peças se dilatarem e se contraírem e, com o tempo, podem romper a vedação. A Panasonic também observa que uma pilha que passou do limite de descarga e depois ficou muito tempo parada pode vazar mais tarde.
A química nunca para por completo. A Panasonic diz que os componentes químicos de uma pilha mudam gradualmente mesmo quando ela não é usada. O The Naked Scientists diz que as pilhas continuam reagindo devagar mesmo sem nada conectado, e que reações secundárias podem acabar fazendo com que se rompam. Nenhuma das fontes diz que toda pilha guardada que vaza seguiu uma sequência específica. A Energizer recomenda guardar as pilhas em temperatura ambiente e umidade moderada, e diz que a geladeira não é necessária nem recomendada.
Nem toda pilha vaza a mesma coisa
As pilhas alcalinas, as AA e AAA comuns, contêm hidróxido de potássio, e a crosta delas é carbonato de potássio.
As pilhas de zinco-carbono, muitas vezes vendidas como comuns ou de uso geral, são diferentes. A Panasonic descreve o eletrólito delas como uma solução levemente ácida de cloreto de zinco ou de cloreto de amônio, então nelas o líquido que vaza de fato tende ao ácido. A Energizer diz que essas pilhas também ficam mais propensas a vazar quando são descarregadas à força.
As pilhas recarregáveis de NiMH, de níquel-hidreto metálico, não estão livres de vazamento. O manual da Energizer para pilhas de lítio classifica a resistência delas a vazamentos como “boa”, a mesma nota que dá às alcalinas. A Panasonic alerta que uma pilha de NiMH descarregada além do limite libera gás hidrogênio. Os conselhos de limpeza da Duracell tratam os vazamentos de NiMH junto com os das alcalinas.
As pilhas AA de lítio usam outra química. As perguntas frequentes da Energizer sobre lítio dizem que as suas pilhas de lítio “não vazam como as pilhas alcalinas vazam”, e o manual classifica a resistência delas a vazamentos como “superior”. As mesmas perguntas frequentes dizem que pilhas submetidas a abuso extremo podem liberar gás e descolorir a tampa superior. São afirmações de um fabricante sobre os seus próprios produtos.
É na bateria do carro que falar em ácido faz sentido. Uma bateria de chumbo-ácido contém ácido sulfúrico. Mesmo assim, a crosta nos seus terminais não é ácido líquido, mas sais formados com a ajuda desse ácido. O Jalopnik, um site de notícias sobre carros, descreve o depósito verde-azulado no terminal positivo como sulfato de cobre.

Por que o vinagre funciona no vazamento de pilha AA e o bicarbonato não
É a química que define como limpar. Um ácido fraco neutraliza algo alcalino. Para limpar vazamentos de pilhas alcalinas, de níquel-cádmio e de NiMH dos contatos de um aparelho, as perguntas frequentes da Duracell sugerem vinagre ou suco de limão diluídos em água meio a meio, ou ácido bórico em água, aplicados com uma escova de dentes ou um cotonete. Recomendam usar luvas domésticas e óculos, trabalhar num lugar bem ventilado e deixar o aparelho secar por completo antes de colocar pilhas novas. Esse conselho vale só para o aparelho, não para a pele nem para os olhos.
O conhecido conselho do bicarbonato de sódio é coisa de bateria de carro. O bicarbonato é um álcali fraco, e é por isso que o Jalopnik o recomenda contra a corrosão ácida dos terminais. Diante de um vazamento alcalino, ele não tem nada para neutralizar.
Os fabricantes são diretos sobre segurança, e para pele e olhos a resposta deles é água pura. A Energizer chama o vazamento de pilha alcalina de extremamente cáustico e diz que o contato com a pele desprotegida deve ser evitado. Se atingir a pele, a Energizer diz para lavar a área com bastante água por 15 minutos. Se o líquido cair nos olhos, a Panasonic diz para não esfregá-los, enxaguar com bastante água limpa e procurar orientação médica sem demora, e alerta para o risco de queimaduras químicas ou cegueira. A Duracell diz para procurar um médico se os componentes químicos da pilha atingirem os olhos.

A crosta mostra o que vazou, mas nem sempre por quê
Então a crosta branca no fundo do controle remoto conta parte da sua história com clareza. Se a pilha era alcalina, o líquido de dentro era um álcali, não um ácido, e o ar o transformou em sal. Como o líquido saiu é mais difícil de ler na crosta. Um caminho bem documentado é o vazamento depois que a pilha morreu. As outras pilhas ou o próprio aparelho continuaram puxando corrente através dela, o gás se acumulou, e uma vedação feita para ceder sob pressão fez exatamente isso. Calor, umidade, idade, um curto-circuito ou um dano também podem iniciar um vazamento, e a crosta sozinha não mostra qual dessas coisas aconteceu.
É também por isso que os conselhos dos fabricantes são tão simples. A Duracell diz para retirar as pilhas assim que se esgotarem, e Energizer, Panasonic e Duracell alertam, todas, contra misturar pilhas velhas e novas.









