De onde vem, de verdade, o seu cashback?
Receber 2% de volta parece generosidade do banco. Na verdade, está mais perto de ser o reembolso de uma taxa que você nunca vê. Cada vez que você paga com cartão de crédito, a loja paga para aceitar o cartão. A parte desse custo que fica com o banco que emitiu o seu cartão se chama taxa de intercâmbio.
O Escritório de Proteção Financeira do Consumidor dos Estados Unidos (CFPB, na sigla em inglês) reúne dados dos maiores emissores de cartão do país. Segundo o órgão, a taxa de intercâmbio média nos cartões de crédito de uso geral foi de 1,8% do valor da compra em 2022. Nas palavras do próprio órgão, os emissores costumam financiar as recompensas com a receita dessa taxa, e as recompensas consumiram quase nove décimos dela. Quem tinha cartão com recompensas recebeu 1,6 centavo em pontos, milhas ou dinheiro de volta para cada dólar gasto nesses cartões em 2021 e 2022.
Então, grosso modo, para cada dólar gasto no cartão de crédito a loja paga ao banco cerca de 1,8 centavo, e nos cartões com recompensas cerca de 1,6 centavo volta para o cliente como recompensa. Os dois números são médias de grupos diferentes de cartões. Por isso são um retrato do mercado inteiro, e não a contabilidade da sua compra. O que eles mostram é que as recompensas não saem da generosidade do banco ; a maior parte do dinheiro é uma taxa que a loja pagou.
O mesmo relatório constatou que os emissores ganham mais com a taxa de intercâmbio do que gastam com recompensas. Essa diferença, porém, não é simplesmente lucro. Uma análise do Federal Reserve, o banco central americano, concluiu que as recompensas e os outros custos das transações, somados, ficaram um pouco acima do que os bancos recebem com essa taxa, e que a maior parte do que eles ganham com cartões vem da concessão de crédito.

Por que quem paga em dinheiro ajuda a bancar o cashback dos outros?
Nem sempre a loja absorve a taxa. Muitas lojas americanas cobram o mesmo preço seja qual for a forma de pagamento, e assim o custo de aceitar cartões se espalha por todos os preços. Nesses casos, quem usa dinheiro ou débito paga na prateleira o mesmo preço de quem acumula pontos. Quando a loja cobra um acréscimo no cartão de crédito ou dá desconto para pagamento em dinheiro, essa ligação se rompe naquela loja.
Em 2010, três economistas do Federal Reserve de Boston, Scott Schuh, Oz Shy e Joanna Stavins, calcularam quanto isso representa. Em média, segundo eles, cada família que paga em dinheiro transfere US$ 149 por ano às famílias que pagam com cartão, e cada família que usa cartão recebe US$ 1.133. Os gastos no cartão e as recompensas crescem com a renda, então a transferência também vai dos mais pobres para os mais ricos. Pela estimativa dos autores, as famílias de menor renda, que ganham até US$ 20.000 por ano, pagam US$ 21 por ano, e as de maior renda, que ganham US$ 150.000 ou mais, recebem US$ 750.
Esses números são médias de um modelo econômico que supõe que as lojas cobram um preço único. Não são uma conta que alguma família específica paga, e dependem de hipóteses sobre quanto da taxa as lojas repassam aos preços. Um trabalho posterior de Marie-Hélène Felt, Fumiko Hayashi, Joanna Stavins e Angelika Welte, publicado pelos bancos do Federal Reserve de Boston e de Kansas City, aponta na mesma direção para os Estados Unidos e o Canadá. Quando se somam as taxas, as recompensas e os custos dos lojistas embutidos nos preços, o grupo de menor renda tem o maior custo líquido em proporção ao que gasta, e o de maior renda, o menor.
Um estudo de 2026 de Egan e coautores, publicado pelo National Bureau of Economic Research, um centro de pesquisa econômica americano, usa dados loja a loja e mesmo assim conclui que quem usa dinheiro e débito ajuda a financiar as recompensas do cartão de crédito. Mas encontra uma transferência menor do que indicaria um modelo simples, em que todo mundo compra nas mesmas lojas. Quem paga em dinheiro e quem paga com cartão tendem a comprar em lugares diferentes, e nas lojas que os dois frequentam as taxas costumam ser mais baixas. Juntos, esses fatores reduzem a transferência em cerca de 25% em relação ao cenário simples de referência do próprio estudo. Os dois trabalhos não medem as coisas da mesma forma, então o mais recente não reduz nessa proporção os números do Fed de Boston ; o que ele mostra é que a transferência real varia de uma loja para outra.

Quem não paga a fatura inteira também banca as recompensas?
A taxa de intercâmbio não explica tudo. O CFPB informa que os juros, e não essa taxa, são a principal fonte de receita do negócio de cartões dos grandes bancos. A maior parte desses juros vem de quem não paga a fatura inteira e carrega saldo devedor de um mês para o outro.
Um estudo do Federal Reserve assinado por Sumit Agarwal, Andrea Presbitero, André Silva e Carlo Wix analisou cerca de 238 milhões de contas de cartão de crédito nos Estados Unidos. Os autores concluíram que quem paga a fatura inteira lucra com os cartões de recompensas à custa daqueles que eles chamam de consumidores ingênuos. Os cartões com recompensas levam todo mundo a gastar mais, mas só uma parte das pessoas acaba com saldos devedores maiores e com os juros que vêm junto. Na versão de janeiro de 2023 do estudo, os autores estimaram uma redistribuição de US$ 15 bilhões por ano, dos mais pobres para os mais ricos e das regiões de menor escolaridade para as de maior escolaridade.
Isso não quer dizer que cada pessoa que carrega saldo devedor pague uma parcela fixa e conhecida do cashback de outra. Também não dá para somar os US$ 15 bilhões aos números por família do Fed de Boston, porque os dois estudos medem coisas diferentes.
Uma recompensa, portanto, tem mais de um pagador. A taxa paga pela loja, que os consumidores muitas vezes cobrem pelos preços, banca a maior parte dela, e os juros de quem carrega dívida no cartão respondem pela maior parte do que o negócio de cartões ganha. As evidências não permitem dizer como uma recompensa específica se divide entre os dois.

O que aconteceu quando os EUA limitaram a taxa do cartão de débito?
Se as recompensas saem mesmo da taxa de intercâmbio, cortar a taxa deveria cortar as recompensas. Os Estados Unidos fizeram esse teste com os cartões de débito. Um trecho da Lei Dodd-Frank, de 2010, conhecido como emenda Durbin, levou o Federal Reserve a impor um teto à taxa de intercâmbio do débito a partir de 1º de outubro de 2011, para bancos com mais de US$ 10 bilhões em ativos. O teto é de 21 centavos mais 0,05% do valor da venda, com um centavo extra para a prevenção de fraudes. Uma análise do Federal Reserve de Richmond concluiu que, numa compra típica, isso equivalia a cerca de metade da taxa cobrada antes.
As recompensas sumiram depressa. Uma pesquisa do setor feita em 2012 com emissores de débito, encomendada pela rede Pulse e citada pelo Fed de Richmond, examinou os emissores sujeitos ao teto que tinham programa de recompensas no débito. Desses, 50% encerraram o programa em 2011, e outros 18% planejavam encerrar o seu em 2012. A mesma análise cita uma pesquisa do Bankrate segundo a qual a tarifa mensal média das contas correntes que não rendem juros subiu 25%, embora essa alta não possa ser atribuída só ao teto.
Os bancos abaixo do limite de US$ 10 bilhões ficaram isentos do teto, e assim os bancos menores e as cooperativas de crédito puderam continuar cobrando a taxa mais alta.

Os tetos da Europa acabaram com as recompensas dos cartões por lá?
A Europa dá uma resposta menos clara. Em 2015, a União Europeia limitou a taxa de intercâmbio dos cartões de consumidores a 0,2% do valor da venda no débito e a 0,3% no crédito, com algumas exceções previstas no regulamento.
Quando a Comissão Europeia reavaliou os tetos em 2020, relatou que não conseguia associá-los a um aumento sistemático das tarifas cobradas dos titulares de cartão, e não encontrou mudança clara nos programas de fidelidade nem no número de cartões emitidos pelos bancos. Quase três quartos dos emissores disseram à Comissão que os benefícios de seus cartões continuaram iguais ou melhoraram. Os críticos dos tetos interpretam esses mesmos anos de outro jeito.
Parte da conclusão da Comissão se apoia no que os próprios emissores relataram sobre si mesmos. Por isso, é melhor tratar a Europa como uma questão em aberto do que como prova num sentido ou noutro. O caso do débito nos Estados Unidos continua sendo o teste mais claro.
Em que pé está a taxa do cartão de crédito nos EUA?
Em 3 de outubro de 2026, duas iniciativas para baixar a taxa de intercâmbio do cartão de crédito nos Estados Unidos seguem em andamento, e nenhuma delas é definitiva.
Em 9 de junho de 2026, o juiz Brian Cogan, do tribunal federal do Brooklyn, deu aprovação preliminar a uma nova versão do acordo entre Visa, Mastercard e lojistas, num processo que começou em 2005. O acordo reduziria as taxas médias em 0,1 ponto percentual por cinco anos e limitaria a 1,25% as taxas dos cartões de crédito comuns de consumidores por oito anos. Também daria às lojas mais liberdade para recusar cartões premium e cobrar acréscimos. Aprovação preliminar não é aprovação final. Segundo a imprensa especializada, centenas de lojistas e associações comerciais apresentaram objeções, a audiência sobre a aprovação final está marcada para 16 de novembro de 2026, e uma associação de lojas de conveniência disse que recorreria se o acordo fosse aprovado.
No Congresso, a Lei de Concorrência dos Cartões de Crédito de 2026 (Credit Card Competition Act, S.3623) foi apresentada no Senado em 13 de janeiro de 2026 e enviada à Comissão de Assuntos Bancários. Desde então ganhou novos coautores, mas não teve votação na comissão nem qualquer outro avanço. O projeto obrigaria os grandes emissores de cartão a deixar as lojas processarem os pagamentos com cartão de crédito por mais de uma rede.
Seja qual for o desfecho, a conta acima continua a mesma. As recompensas são pagas em grande parte com a taxa de intercâmbio. É por isso que os dois lados dessa briga falam de recompensas, e é por isso que, na única vez em que os Estados Unidos cortaram essa taxa com força, as recompensas estiveram entre as primeiras coisas que os bancos abandonaram. A Europa lembra que um corte não precisa acabar com elas.

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