O produto é o seu saldo
Uma conta corrente sem mensalidade parece algo que o banco dá de presente. Está mais perto de algo que o banco compra. O que ele compra é o dinheiro que você deixa parado ali entre um salário e outro.
A FDIC, a agência americana que garante os depósitos bancários, publica todo mês tabelas com as taxas médias do país. Na tabela de setembro de 2026, a conta corrente remunerada pagava em média 0,07% ao ano, e muitas contas correntes não pagam nada. A tabela também traz duas réguas de comparação. Ao lado das contas correntes, usa a taxa dos Fed Funds, o juro que os bancos cobram uns dos outros em empréstimos de um dia para o outro. Ao lado das aplicações de prazo mais curto (dinheiro guardado por um prazo fixo, algo parecido com um CDB), mostra o rendimento dos títulos do Tesouro, de cerca de 3,6%. É o retorno da dívida de curto prazo do governo americano, e praticamente o lugar mais seguro onde um banco pode deixar dinheiro. Seja qual for a régua, o banco consegue ganhar com esse dinheiro muito mais do que paga a você.
Pense num saldo de 5.000 dólares. A 0,07%, ele rende ao dono cerca de 3,50 dólares por ano. Aplicado em títulos do Tesouro a cerca de 3,6%, o mesmo dinheiro renderia cerca de 180 dólares. É uma ilustração, não o que um banco específico ganha com uma conta específica. O banco não fica com toda essa diferença. Agências, aplicativo, funcionários, prevenção de fraudes e exigências regulatórias saem dela, e uma conta com saldo pequeno deixa pouca margem. Mas, na maioria das contas, é dessa diferença que vem o dinheiro que sustenta a gratuidade, e ninguém vê essa cobrança.
Essa diferença existe em toda conta corrente, com ou sem tarifa. O que torna uma conta gratuita é a decisão do banco de que essa diferença, somada às suas outras receitas, basta para dispensar a mensalidade.

Quanto os bancos ganham com todo o dinheiro que guardam
Somando todos os bancos dos Estados Unidos, a diferença entre o que eles ganham com empréstimos e títulos e o que pagam para captar recursos se chama margem financeira líquida. No segundo trimestre de 2026, ela foi de 3,32% para o setor como um todo, segundo a FDIC. Nos bancos comunitários, os bancos locais menores, foi de 3,81%.
Os depósitos em conta corrente são a parte mais barata dessa captação. O Federal Reserve de St. Louis observa que, quando os juros sobem, os bancos aumentam o que pagam na conta corrente menos do que nas aplicações com prazo fixo, porque as pessoas querem acesso imediato ao dinheiro e aceitam receber pouco ou nenhum juro por ele.
Esse hábito vale muito. Num estudo publicado em 2022, os economistas Mark Egan, Stefan Lewellen e Adi Sunderam estimaram que a capacidade de um banco de atrair depósitos baratos, que raramente vão embora, responde por dois terços do valor do banco americano mediano. A estimativa trata do valor de bancos inteiros, não do que rende cada saldo. Ainda assim, sugere que o saldo do dia a dia, no qual quase ninguém pensa, está entre as coisas mais valiosas que um banco tem.
Cada compra no cartão de débito paga uma pequena tarifa ao seu banco
A segunda fonte é menor e chega aos poucos. Quando você paga com o cartão de débito, o lado da loja na transação paga uma tarifa, chamada tarifa de intercâmbio, e a maior parte dela vai para o banco que emitiu o seu cartão. Quem acaba arcando com esse custo é outra história.
Nos Estados Unidos, essa tarifa tem teto para os bancos grandes. Pela Regulation II do Federal Reserve, o banco central americano, um banco com 10 bilhões de dólares ou mais em ativos pode cobrar no máximo 21 centavos mais 0,05% da compra, e mais 1 centavo se cumprir os padrões de prevenção de fraudes. Bancos abaixo desse porte ficam isentos. Nos dados do Fed de 2023, as transações sujeitas ao teto renderam em média de 22 a 24 centavos, enquanto as isentas renderam em média 52 centavos. São médias, e uma compra isolada pode render mais ou menos.
O teto está em vigor, mas a questão não está encerrada. Em agosto de 2025, um tribunal federal da Dakota do Norte concluiu que o Fed tinha ultrapassado sua competência ao fixá-lo e depois suspendeu a própria decisão enquanto o Fed recorre. O tribunal de apelação ouviu as partes em maio de 2026, com boa parte do caso girando em torno do que conta como custo de um banco para processar uma transação, e até o início de outubro nenhuma decisão havia sido divulgada.

Por que aplicativos apoiados em bancos pequenos conseguem oferecer mais
Esse limite de porte explica muita coisa sobre os aplicativos de banco. A maioria deles não é banco. Eles guardam o dinheiro dos clientes por meio de um banco parceiro, e quando esse parceiro tem menos de 10 bilhões de dólares em ativos, as compras com o cartão do aplicativo não ficam sujeitas ao teto.
A Chime, um dos maiores desses aplicativos nos Estados Unidos, informou aos investidores, no documento de 2025 para abrir capital na bolsa, que obtém a grande maioria de sua receita com tarifas de intercâmbio e que depende em parte de seus bancos parceiros continuarem isentos do teto. Em setembro de 2026, a empresa fechou acordo para comprar o Stride Bank, um de seus bancos parceiros, por 590 milhões de dólares, e disse que pretende manter os ativos do banco abaixo de 10 bilhões de dólares. A conclusão do negócio está prevista para o primeiro semestre de 2027, sujeita a aprovações. A Chime também citou entre os motivos da compra a economia com as tarifas pagas aos bancos parceiros, uma captação mais barata e mais crédito, mas é ficar abaixo do limite de porte que mantém sua receita com o cartão fora do teto.
As tarifas de cheque especial são altas, mas recaem sobre poucas contas
As tarifas por saldo negativo, cobradas quando um pagamento é aceito sem dinheiro suficiente na conta, são a receita de que as pessoas mais desconfiam. Elas representam dinheiro de verdade para os bancos, mas não vêm da maioria dos clientes.
Quando a Agência de Proteção Financeira do Consumidor dos Estados Unidos, a CFPB, estudou contas de vários bancos grandes com dados de 2011 e 2012, descobriu que 9% das contas analisadas pagavam 79% de todas as tarifas por saldo negativo e por falta de fundos. A maioria dos clientes pagava pouco ou nada, então, para a maior parte das pessoas, a conta precisa se pagar de outro jeito.
Hoje não existe teto federal para essas tarifas. Em dezembro de 2024, a agência aprovou uma regra que teria limitado a 5 dólares a tarifa por saldo negativo nos bancos grandes, a menos que o banco comprovasse seus custos ou tratasse o valor como um empréstimo. O Congresso derrubou a regra, e o presidente assinou a resolução em 9 de maio de 2025, antes que ela entrasse em vigor. Pela lei usada pelo Congresso, a agência não pode editar uma regra substancialmente parecida sem autorização do próprio Congresso. Regras estaduais ainda podem valer.

Contas gratuitas dependem de regras, não de bondade
Os bancos também contam com algo mais difícil de medir. A conta onde cai o seu salário é a que o banco enxerga primeiro, e ela garante ao banco um lugar à mesa quando você precisa de um financiamento imobiliário ou de um cartão de crédito. Os bancos chamam isso de ser o banco principal do cliente, e nenhum número público põe um preço confiável nisso.
Olhando para fora dos Estados Unidos, a mesma engrenagem aparece sob outras regras. Quando a autoridade de concorrência do Reino Unido estudou as contas correntes há cerca de uma década, constatou que pouco menos de dois terços das contas ativas em 2015 não cobravam tarifa regular e que os clientes pagavam de outra forma, com os juros que deixavam de receber e com as tarifas por saldo negativo. Ela estimou a receita média do banco por conta em 2014 em cerca de 177 libras por ano, com os 10% de contas que menos rendiam trazendo cerca de 15 libras e os 10% que mais rendiam, mais de 700.
Na União Europeia, a tarifa de intercâmbio dos cartões de débito de pessoas físicas tem teto desde 2015, de 0,2% da compra, bem abaixo do que cobra um banco pequeno americano sem teto. O quanto uma conta parece gratuita depende muito dos juros e das regras para as tarifas de cartão, não da generosidade do banco.
No fim das contas, a conta corrente gratuita tem preço. Para a maioria dos clientes, ele é pago nos juros que o dinheiro deixa de render, um pouco de cada vez. Para alguns, é pago em tarifas por saldo negativo, e há contas que trazem muito pouco ao banco.









