A IA é o maior negócio da SpaceX em vendas, não em lucro
Nos três meses encerrados em 30 de setembro de 2026, a SpaceX teve receita de US$ 14,58 bilhões. O segmento de inteligência artificial, que a empresa agora chama de Super Intelligence, respondeu por US$ 7,56 bilhões desse total. O segmento de Conectividade, que inclui a Starlink, o serviço de internet por satélite, faturou US$ 5,25 bilhões. Os documentos não trazem um número separado para a Starlink, então a comparação é entre os dois segmentos. Em vendas, a IA foi o maior negócio neste trimestre.
No lucro, a história se inverte. O lucro operacional é o que sobra das vendas depois de pagos os custos da operação, antes de juros e impostos. A SpaceX teve US$ 2,79 bilhões de lucro operacional no trimestre. Desse total, US$ 2,37 bilhões, cerca de 85%, vieram da Conectividade. O segmento de IA gerou US$ 431 milhões, e o negócio de foguetes e lançamentos, o segmento Espaço, teve prejuízo de US$ 7 milhões.
Portanto, a ideia de que a IA já supera a Starlink está só meio certa. No trimestre, a IA faturou mais, e o segmento da Starlink ficou com a maior parte do lucro. O resto deste texto explica de onde vem o dinheiro da IA, o que os documentos deixam de dizer sobre ele e por que esses dois fatos convivem.

O dinheiro da IA vem de vários serviços, e sobretudo de um cliente
A empresa divide os US$ 7,56 bilhões em duas partes. Do total, US$ 538 milhões vêm de publicidade, quase toda no X, a rede social que antes se chamava Twitter. Os outros US$ 7,02 bilhões são o que ela chama de soluções e infraestrutura. Isso inclui assinaturas do chatbot Grok, do Cursor (um assistente de programação que ela comprou em agosto) e do X, além de taxas pagas por outros desenvolvedores que acessam seus modelos de IA e de taxas por dados. Inclui também serviços de nuvem, ou seja, o aluguel da capacidade de computação dos seus centros de dados a outras empresas que desenvolvem IA.
Os serviços de nuvem são novos. A SpaceX diz que começou a oferecê-los no segundo trimestre de 2026 e aponta novos contratos de nuvem como um dos principais motores do crescimento do segmento, junto com a compra do Cursor e o avanço dos seus modelos de IA e software. Ela não informa quanto dos US$ 7,02 bilhões veio da nuvem, então os documentos não mostram se o aluguel de capacidade de computação é a maior parte do dinheiro da IA.
Um número mostra o quanto esse dinheiro está concentrado. O relatório trimestral diz que um único cliente, identificado só como Cliente B, respondeu por 34,5% de toda a receita da SpaceX no trimestre, toda ela registrada no segmento de IA. Isso dá cerca de US$ 5,0 bilhões, ou aproximadamente dois terços da receita do segmento de IA. Um ano antes, o mesmo cliente respondia por menos de 10% do total. O documento não identifica o cliente nem diz o que ele compra : capacidade de computação, acesso aos modelos ou outra coisa.
O documento descreve, sim, como os serviços de nuvem são vendidos. Eles são cobrados com uma mensalidade fixa, em contratos que costumam durar três anos e que qualquer das partes pode encerrar com aviso prévio de 90 dias. Essa é a regra dos contratos de nuvem em geral. O documento não diz se o contrato do Cliente B é um deles, então não mostra com que facilidade esse cliente poderia sair. O que ele mostra é que cerca de dois terços da receita do segmento de IA dependem de um único cliente cujas compras não são reveladas.

O que entra e o que fica fora no salto de nove vezes da receita de IA da SpaceX
Um ano antes, no terceiro trimestre de 2025, o mesmo segmento teve receita de US$ 813 milhões, o que significa que a receita se multiplicou por mais de nove. Parte desse crescimento foi comprada, não conquistada, e vale saber qual parte.
A SpaceX se fundiu com a xAI, a empresa de IA por trás do Grok, em fevereiro de 2026, e a xAI já era dona do X. O documento descreve essas operações como fusões sob controle comum, o que quer dizer que a mesma pessoa controlava as empresas dos dois lados. Os números do segmento de um ano antes incluem US$ 454 milhões de publicidade, o que sugere que o X já estava incluído nos US$ 813 milhões. Os documentos consultados para este texto não explicam como os números de 2025 foram reapresentados, então essa leitura se apoia nesses números, e não numa declaração explícita. Por essa leitura, não é a fusão que explica o salto em relação ao ano anterior.
Já o Cursor explica parte dele. A SpaceX concluiu a compra em 14 de agosto de 2026, por um valor implícito de US$ 60 bilhões, e o Cursor acrescentou US$ 608 milhões de receita nas seis semanas em que pertenceu à empresa. Esse dinheiro veio com a compra. Descontado esse valor, sobram cerca de US$ 6,95 bilhões de receita no segmento de IA, ainda mais de oito vezes o valor do ano anterior. É uma subtração simples, não um índice de crescimento divulgado pela empresa. A empresa aponta os novos contratos de nuvem como um dos principais motores da alta, sem dizer quanto dela eles representam. Mesmo sem o Cursor, a receita de soluções e infraestrutura quase triplicou em relação ao trimestre anterior, de US$ 2,19 bilhões para cerca de US$ 6,41 bilhões.

Por que o lucro de IA da SpaceX parece pequeno perto das vendas
Os US$ 431 milhões de lucro operacional do segmento de IA já descontam US$ 1,2 bilhão de remuneração em ações ligada à compra do Cursor. A empresa atribui essas ações ao trabalho feito depois da compra, então elas são, na prática, o custo das ações da SpaceX entregues para reter a equipe do Cursor. Não sai dinheiro do caixa, mas o custo é real, porque dilui a propriedade da empresa entre mais ações.
Os custos do segmento também são altos porque os equipamentos se desgastam. No trimestre, o segmento de IA registrou US$ 2,47 bilhões de depreciação e amortização, o custo contábil da perda de valor de computadores e centros de dados com o uso.
A SpaceX também divulga uma medida que chama de Segment Adjusted EBITDA (EBITDA ajustado do segmento), que deixa de fora a depreciação, a remuneração em ações e alguns outros custos. Por essa medida, o segmento de IA gerou US$ 4,95 bilhões. O documento da empresa diz que essa é uma medida fora do padrão contábil (non-GAAP), ou seja, não definida pelas regras contábeis oficiais, e que não deve ser lida isoladamente. A diferença entre US$ 431 milhões e US$ 4,95 bilhões corresponde, em grande parte, aos custos que essa medida deixa de fora.
No segmento da Starlink, não há uma diferença assim a explicar. A receita da Conectividade cresceu 69% em relação a um ano antes, e o lucro operacional quase dobrou, chegando a US$ 2,37 bilhões. Neste trimestre, foi isso que sustentou o lucro da SpaceX.

Os gastos da SpaceX com IA estão muito à frente da receita de IA
Investimento de capital é o dinheiro gasto em bens de longa duração, como prédios, chips e máquinas, e ele não entra nos custos operacionais de uma só vez. No trimestre, a SpaceX investiu US$ 19,6 bilhões dessa forma, dos quais US$ 16,4 bilhões foram para o segmento de IA. É mais que o dobro dos US$ 7,56 bilhões que o segmento faturou nos mesmos três meses. A Conectividade, em comparação, investiu US$ 1,5 bilhão.
Nos primeiros nove meses de 2026, o investimento de capital em IA foi de US$ 40,0 bilhões, contra US$ 10,9 bilhões de receita do segmento de IA.
Cada um dos três números responde a uma pergunta diferente. A receita mostra quem está pagando agora, e cerca de dois terços da parte da IA vêm de um cliente cujas compras o documento não descreve. O lucro operacional mostra o que sobra depois dos custos da operação, e ele vem sobretudo do segmento da Starlink. O investimento de capital mostra para onde o dinheiro está indo, principalmente para centros de dados, antes que chegue a receita que deveria pagar por eles.

O que um trimestre de números da SpaceX não consegue dizer
Esses números descrevem três meses, e o negócio de nuvem por trás de boa parte do crescimento tem cerca de seis meses. Eles não mostram se o grande cliente vai continuar comprando nessa escala, o que ele compra, se novos contratos vão substituí-lo ou somar-se a ele, nem se a capacidade de computação em construção vai encontrar compradores.
Mais um número pede cuidado. A SpaceX informou lucro líquido de US$ 4,4 bilhões, mais que os US$ 2,79 bilhões de lucro operacional. A diferença vem de itens fora da operação do dia a dia, entre eles um benefício fiscal de US$ 390 milhões. Por isso este texto usa o lucro operacional para comparar os segmentos.
Este texto descreve o que os documentos da SpaceX mostram sobre um trimestre. Não é uma opinião sobre as ações da SpaceX ou o seu preço, e os números, sozinhos, não dizem nada sobre o que vem a seguir.








