Duas moléculas vendidas com cinco nomes comerciais
A disputa é entre dois medicamentos, cada um vendido com mais de um nome comercial. A tirzepatida é da Eli Lilly. A FDA, a agência que regula medicamentos nos Estados Unidos, aprovou a molécula como Mounjaro em maio de 2022, para melhorar o controle do açúcar no sangue no diabetes tipo 2. Em novembro de 2023, aprovou a mesma molécula como Zepbound, para o controle de peso de longo prazo em adultos com obesidade, ou com sobrepeso e algum problema de saúde ligado ao peso. Segundo a FDA, o remédio age sobre os receptores de dois hormônios produzidos no intestino, o GLP-1 e o GIP, e assim reduz o apetite e a quantidade de comida ingerida. A Lilly diz que vende a tirzepatida para obesidade com o nome Zepbound nos Estados Unidos, no Canadá e no Japão.
A semaglutida é da Novo Nordisk. A Novo a vende como Ozempic, uma injeção que a empresa classifica entre seus remédios para diabetes ; como Wegovy, classificado entre os remédios para obesidade ; e como Rybelsus, um comprimido para diabetes. Em janeiro de 2026, a empresa lançou nos Estados Unidos o Wegovy em comprimido, cujas vendas informa numa linha à parte, e passou a informar o Rybelsus como "Ozempic pill / Rybelsus". A comparação aqui soma todos eles, porque todos são semaglutida.

Como a Lilly saiu de muito atrás e abriu larga vantagem
No primeiro trimestre de 2022, antes da aprovação do Mounjaro, os remédios de semaglutida da Novo venderam US$ 2,3 bilhões. A tirzepatida da Lilly ainda não vendia nada. No fim de 2023, Mounjaro e Zepbound juntos vendiam US$ 2,4 bilhões por trimestre, um quarto da receita da Lilly, e a Novo ainda vendia 2,8 vezes esse valor.
A partir daí, as vendas da Lilly cresceram muito mais rápido. Nos cinco trimestres seguintes, passaram de US$ 2,4 bilhões para US$ 6,2 bilhões. As da Novo também cresceram, embora mais devagar, com recuos no primeiro trimestre de 2024 e no de 2025. No segundo trimestre de 2025, as duas estavam quase empatadas, com US$ 8,6 bilhões para a Lilly e US$ 8,7 bilhões para a Novo. No terceiro trimestre, a Lilly passou à frente, com US$ 10,1 bilhões contra US$ 8,9 bilhões. Desde então, a diferença aumentou a cada trimestre. No segundo trimestre de 2026, já eram US$ 14,9 bilhões contra US$ 9,2 bilhões.
Cada empresa dá a sua explicação. A Lilly diz que o crescimento da receita no segundo trimestre de 2026 veio principalmente do maior volume vendido de Mounjaro e Zepbound, enquanto os preços efetivamente praticados caíram. Em meados de 2025, quando reduziu a previsão de vendas para o ano, a Novo citou o uso contínuo nos Estados Unidos de cópias de remédios de GLP-1 feitas em farmácias de manipulação, uma expansão do mercado mais lenta que o esperado e a concorrência. Nos relatórios de 2026, a Novo aponta preços efetivamente praticados mais baixos, em parte compensados por volumes maiores. Os números mostram que o crescimento veio depois das aprovações, mas não medem o que o causou.
No acumulado de 2025, a vantagem foi menor, com US$ 36,5 bilhões para Mounjaro e Zepbound contra US$ 34,6 bilhões para a semaglutida da Novo, calculando o ano da Novo como a soma dos seus quatro trimestres em dólares. Os trimestres mostram o que o total anual esconde. A Lilly começou o ano atrás e terminou bem à frente.

Como a comparação foi feita
Os dois números são vendas líquidas no mundo inteiro, já descontados abatimentos e descontos. A Lilly segue as regras contábeis americanas (GAAP), e a Novo, as regras internacionais (IFRS). Para 2026, os números da Novo usados aqui são os ajustados, explicados mais abaixo, e não as vendas que ela registrou pelas regras IFRS. Os trimestres são os do calendário, que coincidem com os trimestres fiscais das duas empresas. A Lilly não publica relatório trimestral do quarto trimestre, então o quarto trimestre de cada ano foi calculado como o número do relatório anual menos o dos nove primeiros meses. Os comunicados de resultados da Lilly trazem os mesmos números arredondados. Todos os valores estão em dólares da época, sem correção pela inflação. Medem dinheiro, não o número de pacientes nem de receitas médicas.
A Novo informa seus números em coroas dinamarquesas. Aqui, eles foram convertidos pela média trimestral da cotação diária coroa-dólar publicada pelo Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Por isso, a série da Novo em dólares oscila em parte com o câmbio. No fim de 2025 e em 2026, cada coroa comprava mais dólares do que no início de 2025, então parte da alta da série da Novo em dólares nesse período vem do câmbio. Medidas em coroas, e na base ajustada usada aqui para 2026, as vendas de semaglutida da Novo continuam abaixo do nível do último trimestre de 2024. Com outra cotação publicada, a do Banco Central Europeu, os números arredondados são os mesmos em todos os trimestres, menos um. No terceiro trimestre de 2025, ela dá US$ 8,8 bilhões em vez de US$ 8,9 bilhões. Em qualquer dos casos, a Lilly está à frente.
As reversões contábeis pontuais que mexem nos números da Novo
Os números da Novo pedem mais um cuidado. Um programa americano de preços de medicamentos permite que certos prestadores de serviços de saúde comprem remédios com desconto. Em 2021, a Novo mudou a forma de entregar esses remédios com desconto às farmácias com que esses prestadores trabalham. A mudança foi contestada na Justiça, e a Novo separou parte das vendas numa provisão para cobrir descontos que talvez ainda tivesse de pagar. No primeiro trimestre de 2026, reverteu essa provisão inteira, um efeito pontual que aumentou as vendas registradas e que, nas palavras da Novo, não teve impacto no caixa. Os números ajustados da própria Novo deixam esse valor de fora, assim como os números de 2026 usados aqui. Com a reversão incluída, como a Novo registrou, as vendas de semaglutida nesse trimestre seriam de US$ 10,7 bilhões em vez de US$ 8,3 bilhões, ainda abaixo dos US$ 12,8 bilhões da Lilly. No segundo trimestre de 2026, não houve nenhum item desse tipo.
A Novo tinha feito uma reversão menor do mesmo tipo no segundo trimestre de 2025, de 2,6 bilhões de coroas dinamarquesas no total dos seus produtos. Hoje a Novo também deixa esse valor fora dos números ajustados. Os números de 2025 usados aqui são os que a Novo informou na época, então o incluem. Isso afeta a data em que a Lilly assumiu a liderança. A Novo não disse quanto dessa reversão de 2025 foi lançado nas marcas de semaglutida. Se foi mais de 19,5%, então, descontada essa parte, as duas marcas da Lilly já estariam à frente no segundo trimestre de 2025, e não só a partir do terceiro. Os números da Novo não resolvem a questão. Na reversão maior, de 2026, em que a Novo informa a divisão por produto, 58% recaíram sobre as marcas de semaglutida, mas trata-se de outra reversão, que não permite concluir nada sobre a anterior. Portanto, a Lilly assumiu a liderança no terceiro trimestre de 2025 pelos números informados na época, e talvez um trimestre antes pela base ajustada que a Novo adotou depois. Em qualquer das duas bases, a Lilly está à frente desde então.

O que os números não dizem
Os números vão até o segundo trimestre de 2026, o último que as duas empresas tinham divulgado quando os dados foram reunidos, no fim de outubro de 2026. Resultados mais recentes vão completar o quadro. A comparação trata das vendas de duas moléculas. Não diz nada sobre qual remédio funciona melhor para quem, nem é uma opinião sobre as ações de nenhuma das empresas. A velocidade com que a vantagem da Lilly cresceu no passado não diz nada sobre o que vem pela frente.
- US FDA, Novel Drug Approvals for 2022 (Mounjaro, 13 May 2022)]
- US FDA (8 November 2023), FDA Approves New Medication for Chronic Weight Management]
- Eli Lilly, quarterly reports (10-Q) and annual reports (10-K), 2022 to 2026, via SEC EDGAR]
- Eli Lilly, Q2 2026 earnings release, via SEC EDGAR]
- Eli Lilly, Q4 2025 earnings release, via SEC EDGAR]
- Novo Nordisk, quarterly company announcements (6-K), 2022 to 2026, via SEC EDGAR]
- Novo Nordisk, financial report for the first six months of 2025, via SEC EDGAR]
- Novo Nordisk, financial report for the first three months of 2026, via SEC EDGAR]








![Fontes 8 : fda.gov · US FDA, Novel Drug Approvals for 2022 (Mounjaro, 13 May 2022)], fda.gov · US FDA (8 November 2023), FDA Approves New Medication for Chronic Weight Management], sec.gov · Eli Lilly, quarterly reports (10-Q) and annual reports (10-K), 2022 to 2026, via SEC EDGAR] + 5](https://media.cdn.polora.ai/picks/2026/11/pickrun_a1d67fd2ec8e46fe/h1a-L3O016VE2dYp-slide-08--mounjaro-e-zepbound-j.jpg)
