Paris teve lucro, e a França pagou bilhões
Em junho de 2025, o comitê que organizou os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024 fechou as contas com um superávit de 75,7 milhões de euros. Seis meses antes, tinha anunciado 26,8 milhões. O valor subiu à medida que os últimos contratos com fornecedores foram acertados. Para o padrão dos Jogos, é um bom resultado.
Três meses depois, o Tribunal de Contas da França, a Cour des comptes, publicou um número bem diferente. Concluiu que cerca de 6,65 bilhões de euros de dinheiro público tinham sido gastos nos mesmos Jogos. Do outro lado da balança, o tribunal só identificou cerca de 293,6 milhões de euros que voltaram aos cofres públicos em impostos e receitas comerciais. Tony Estanguet, que dirigiu o comitê organizador, disse contestar veementemente esse número.
Os dois números podem estar certos, porque vêm de duas contabilidades diferentes. A distância entre eles é a resposta à pergunta.

- Cour des comptes, Les Jeux olympiques et paralympiques de Paris 2024 (rapport, septembre 2025)
- COJOP Paris 2024 : la Cour des comptes salue une organisation globalement maîtrisée
- franceinfo : Jeux de Paris 2024, 6,6 milliards de dépenses publiques mais une absence de dérapage budgétaire selon la Cour des comptes
- Banque des Territoires : pour la Cour des comptes, Paris 2024 a eu un impact économique limité
O que o orçamento dos organizadores cobre, e o que deixa de fora
Um comitê organizador paga para realizar o evento em si : pessoal, operação, cerimônias, instalações temporárias. Em Paris, ele arrecadou 4.494,2 milhões de euros e gastou 4.418,5 milhões. A maior parte dessa receita era privada. Até dezembro de 2024, o comitê contabilizava cerca de 1,333 bilhão de euros em ingressos, 1,238 bilhão em patrocínios fechados na França e 1,228 bilhão repassado pelo COI a partir de seus próprios contratos de TV e patrocínio. Os subsídios públicos ao comitê somaram 224,1 milhões de euros, e o superávit já inclui esse dinheiro.
A segunda contabilidade é a do setor público. A Cour des comptes contou 3,02 bilhões de euros de gasto público com a realização dos Jogos, dos quais 1,44 bilhão em segurança, mais 3,63 bilhões em infraestrutura, como arenas, a vila dos atletas e transporte. Quando publicou o relatório, o tribunal não tinha identificado nenhuma receita orçamentária do lado da infraestrutura.
Os auditores atribuem cerca de 3,88 bilhões de euros desse gasto ao Estado francês e seus órgãos, e cerca de 2,36 bilhões ao conjunto das autoridades locais e seus órgãos ; empresas públicas também participaram. Por autoridades locais entendem-se aqui vários entes, não apenas a Prefeitura de Paris, e o relatório não mostra quanto o governo da própria cidade pagou.
Nem todo esse dinheiro se perdeu. Os auditores separam o custo do evento da infraestrutura que passa a fazer parte do patrimônio do país, mas dizem que o retorno econômico de longo prazo continua incerto.
Então, quando se diz que os Jogos se pagaram, isso vale para as contas do comitê, que incluem subsídios públicos, e não para as contas públicas como um todo.

- Cour des comptes, Les Jeux olympiques et paralympiques de Paris 2024 (rapport, septembre 2025)
- Cour des comptes, communiqué de presse sur le bilan des JOP 2024
- COJOP Paris 2024 : la Cour des comptes salue une organisation globalement maîtrisée
- SuperSport : Paris Olympics organising committee budget totals 4.5 billion
- franceinfo : Jeux de Paris 2024, dépenses publiques selon la Cour des comptes
- Banque des Territoires : pour la Cour des comptes, Paris 2024 a eu un impact économique limité
O COI vende os Jogos antes que alguém os sedie
O Comitê Olímpico Internacional (COI), a entidade privada sediada na Suíça que é dona dos Jogos, ganha a maior parte do seu dinheiro de duas formas. Vende direitos de transmissão a emissoras do mundo todo e vende patrocínio global a um pequeno grupo de empresas, por meio do que chama de Programa TOP. De 2021 a 2024, esses contratos comerciais renderam 7,7 bilhões de dólares, valor que o COI chama de recorde.
Os contratos são assinados com anos de antecedência, às vezes mais de uma década. No início de 2025, o COI dizia já ter garantido 7,5 bilhões de dólares para 2025 a 2028, 6,9 bilhões para 2029 a 2032 e 4 bilhões para 2033 a 2036, um período que inclui Jogos ainda sem sede. Outra publicação do COI fala em 7,4 bilhões para 2025 a 2028. De um jeito ou de outro, o dinheiro é acertado muito antes de qualquer sede erguer seu estádio ou ver seu orçamento posto à prova.
Ainda assim, Jogos mal organizados acabariam prejudicando o COI, porque os próximos contratos seriam mais difíceis de vender. Mas a maior parte da receita ligada a uma edição dos Jogos é acertada antes que a sede gaste o primeiro euro.

Quanto o COI repassa depende de quem faz a conta
O COI diz distribuir mais de 90% de sua receita pelo Movimento Olímpico, o equivalente, nas suas palavras, a 4,7 milhões de dólares por dia, e usar o restante para se manter. Parte disso vai para o comitê organizador de cada edição. Paris recebeu cerca de 1,228 bilhão de euros, aproximadamente um quarto do seu orçamento. O resto vai para federações esportivas internacionais, comitês olímpicos nacionais e programas para atletas.
Contas independentes chegam a números menores. O Sports Examiner, boletim americano que cobre o negócio olímpico, examinou o relatório anual de 2024 do COI e calculou que 73,9% da receita foram distribuídos de 2021 a 2024, ou 64,9% se os direitos de mídia dos Jogos de Tóquio 2020 ficarem de fora. Pela conta do boletim, boa parte do restante foi para custos de funcionamento e para reservas de cerca de 4,9 bilhões de dólares. O resultado depende de quais anos e quais receitas entram na conta, então os 90% são a formulação do próprio COI, e não um número consolidado.
O dinheiro também faz o caminho inverso. Pelos acordos divulgados para Paris, 20% do superávit dos organizadores vão para o COI e 20% para o Comitê Olímpico Nacional da França, e o restante se destina ao esporte na França.

Quem assina o cheque se faltar dinheiro
Antes de escolher uma sede, o COI pede garantias de que as autoridades públicas cobrirão qualquer déficit no orçamento do comitê organizador. Quando Los Angeles disputava os Jogos de 2024, a cidade assumiu esse compromisso. A Califórnia acrescentou sua própria garantia, limitada a 250 milhões de dólares, que só seria acionada depois da garantia da cidade. Los Angeles acabou ficando com os Jogos de 2028, e as condições em vigor para eles podem ser diferentes.
Os pesquisadores de Oxford Alexander Budzier e Bent Flyvbjerg comparam isso a assinar um cheque em branco : a sede aceita de antemão pagar o que quer que os Jogos acabem custando. No estudo deles, o orçamento apresentado na candidatura funciona, em média, como uma entrada de só 38% do custo final.

Todas as Olimpíadas com dados de custo estouraram o orçamento
O Oxford Olympics Study 2024 reuniu dados de custo de todos os Jogos de 1960 a 2024. Nas 23 edições em que se conheciam tanto a estimativa da candidatura quanto o custo final, todas estouraram o orçamento. Descontada a inflação, o estouro médio foi de 159%, o segundo maior entre todos os tipos de grandes projetos que os autores acompanham. Só o armazenamento de resíduos nucleares foi pior. Eles também concluíram que o custo dos Jogos está subindo, e não caindo.
A Cour des comptes não encontrou estouro geral do orçamento em Paris. Os autores de Oxford, contando apenas os custos ligados ao esporte e deixando de fora a infraestrutura mais ampla, ainda assim estimam o custo de Paris em 8,7 bilhões de dólares, em valores de 2022, 115% acima da estimativa original. Os dois estudos medem coisas diferentes, então seus totais não devem ser postos lado a lado.
O método de Oxford tem críticos. Em 2022, Holger Preuss publicou um artigo revisado por pares contestando premissas e comparações de trabalhos anteriores da equipe. Mas o artigo não mostrou que sediar os Jogos compensa financeiramente.

O retorno prometido raramente chega
As sedes justificam a conta com o que vem depois : turistas, investimento, uma cidade mais conhecida. Em 2016, os economistas Robert Baade e Victor Matheson revisaram as pesquisas e concluíram que, na maioria dos casos, as Olimpíadas dão prejuízo às cidades-sede. Segundo eles, os Jogos só compensam em circunstâncias muito específicas e incomuns, e o argumento é ainda mais fraco em países em desenvolvimento.
Até agora, Paris confirma isso. A Cour des comptes estimou que os Jogos acrescentaram cerca de 0,07 ponto percentual ao crescimento da França em 2024. As hospedagens em hotéis da região de Paris caíram de forma significativa naquele verão, tanto de residentes quanto de estrangeiros. Sobre a nova infraestrutura, os auditores escreveram que é pouco provável que sua operação gere retorno econômico positivo, embora também tenham dito que seu valor de longo prazo ainda não está estabelecido.
Baade e Matheson também reconhecem o orgulho cívico e o clima de bem-estar como benefícios reais. Só que esses benefícios são difíceis de pesar contra uma conta de bilhões.
Cada vez menos cidades querem o acordo
Os eleitores perceberam. Na disputa por 2024, Boston, Hamburgo, Roma e Budapeste desistiram, em grande parte porque os moradores estavam preocupados com o custo. Sobraram Paris e Los Angeles, e o COI deu a uma os Jogos de 2024 e à outra os de 2028. A disputa pelos Jogos de Inverno de 2022 já tinha ficado restrita à China e ao Cazaquistão.
O COI mudou a forma de escolher. Em vez de uma disputa aberta, agora escolhe uma sede preferencial e negocia só com essa cidade. Brisbane, na Austrália, foi a primeira sede escolhida assim, confirmada para 2032 por 72 votos a 5, sem nenhuma cidade rival na cédula. Os organizadores de Los Angeles dizem que não pretendem construir nenhuma nova arena permanente. Os autores de Oxford duvidam que reaproveitar instalações seja suficiente : concluíram que isso não teve o efeito desejado em Tóquio e pareceu ineficaz em Paris.
Afinal, quem sai ganhando?
A receita do COI é, em grande parte, vendida antes da escolha da sede, e o COI repassa uma parcela grande dela aos organizadores e ao Movimento Olímpico em geral. As autoridades públicas do país-sede garantem qualquer déficit e pagam os estádios, os trens e a polícia, e ainda não se sabe, no caso de Paris, se esse gasto trará algum retorno no longo prazo. Um comitê organizador pode terminar com lucro, como o de Paris, enquanto a conta pública chega aos bilhões. Então, quando alguém disser que uma Olimpíada deu dinheiro, a pergunta a fazer é : nas contas de quem?










